Metade das crianças do planeta está exposta a riscos da crise climática

Relatório do Unicef aponta que 1,1 bilhão de crianças e adolescentes está vulnerável a pelo menos três ameaças climáticas
Crianças enfrentam múltiplos riscos da crise climática

No Brasil, 16 milhões de crianças e adolescentes convivem com três ou mais ameaças climáticas, como ondas de calor e secas. Fortalecer a eficiência dos serviços de água e saneamento, bem como dos sistemas de proteção social responsivos a emergências são vitais para mitigar riscos.

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Quase metade das crianças e adolescentes do mundo, o equivalente a 1,1 bilhão de pessoas, está exposta a pelo menos três riscos climáticos que ameaçam sua saúde, educação e sobrevivência. O dado consta do Relatório de Risco Climático das Crianças 2026, divulgado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

O estudo mostra que praticamente todas as crianças do planeta enfrentam ao menos uma ameaça climática. Mais de 4 milhões estão expostas simultaneamente a até seis riscos diferentes.

No Brasil, 16 milhões de crianças e adolescentes convivem com três ou mais ameaças climáticas, como ondas de calor e secas. O número corresponde a três em cada dez meninos e meninas do país. Quando considerados dois ou mais riscos, o total ultrapassa 30 milhões de crianças e adolescentes, ou seis em cada dez.

O relatório utiliza os dados mais recentes disponíveis para mapear a exposição infantil a oito ameaças climáticas recorrentes: enchentes costeiras, secas, calor extremo, queimadas, ondas de calor, enchentes de rios, tempestades de areia e poeira e tempestades tropicais.

Pela primeira vez, o levantamento identifica com precisão onde e com que intensidade múltiplas ameaças climáticas afetam crianças e adolescentes, além de apontar os impactos sobre os serviços públicos essenciais dos quais dependem. O documento também apresenta medidas que podem ser adotadas pelos governos para enfrentar o problema.

O relatório analisa a exposição das crianças a oito perigos climáticos: enchentes costeiras, secas, calor extremo, queimadas, ondas de calor, enchentes fluviais, tempestades de areia e poeira, e tempestades tropicais, bem como dois perigos sensíveis ao clima, poluição do ar e doenças transmitidas por vetores; ao mesmo tempo em que considera vulnerabilidades inerentes das crianças em sete dimensões: água, saneamento e higiene (WASH), nutrição, proteção, saúde, educação, pobreza e sobrevivência infantil.

Segundo a diretora-executiva do Unicef, Catherine Russell, a vida das crianças continua sendo profundamente afetada por eventos climáticos extremos.

“Ondas de calor, incêndios florestais, secas e enchentes seguem abalando profundamente a vida das crianças”, afirma.

A combinação mais frequente de riscos climáticos é formada por seca, calor extremo e ondas de calor. Mais de 296 milhões de crianças e adolescentes vivem em áreas sujeitas simultaneamente a essas três condições. A segunda combinação mais comum reúne seca, calor extremo e tempestades tropicais, afetando mais de 115 milhões de crianças em todo o mundo.

Na região do Sahel, na África, uma das mais impactadas pelas mudanças climáticas, mais de 4 milhões de crianças enfrentam a combinação de ondas de calor, calor extremo e tempestades de areia e poeira.

Em países asiáticos como Bangladesh, Mianmar e Paquistão, as crianças estão expostas a um número maior de ameaças climáticas e a níveis mais intensos de risco do que em qualquer outra região do planeta.

O relatório destaca que os impactos da crise climática também atingem países de alta renda. Na Itália, por exemplo, mais de 6 milhões de crianças e adolescentes estão expostos a ondas de calor prolongadas e secas.

Além das oito ameaças analisadas, o estudo avalia a exposição infantil à poluição do ar e à malária, dois problemas fortemente influenciados pelas mudanças climáticas. Os dados indicam que a poluição atmosférica afeta quase todas as crianças do mundo, enquanto cerca de 1 bilhão está exposto à malária.

No Brasil, 95% das crianças e adolescentes — cerca de 47 milhões de pessoas — estão expostos à poluição do ar. Outras 5,6 milhões convivem com o risco da malária.

“Sem esforços urgentes para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, as ameaças climáticas se tornarão mais frequentes e intensas, pressionando ainda mais os orçamentos públicos, os sistemas governamentais e comprometendo o bem-estar das crianças”, alerta o relatório.

Entre as principais recomendações do Unicef estão a redução das emissões de gases de efeito estufa, a eliminação gradual dos combustíveis fósseis e a promoção de uma transição justa para energias renováveis. O organismo também defende medidas de adaptação climática inclusiva, fortalecimento dos serviços públicos essenciais, ampliação dos sistemas de alerta precoce, garantia da segurança alimentar e investimentos em educação climática.

O relatório ainda recomenda a criação de escolas seguras e sustentáveis, unidades de saúde resilientes às mudanças climáticas e mecanismos que assegurem a participação de crianças e jovens nas decisões relacionadas à ação climática.

“Esse estudo pode ajudar governos e tomadores de decisão a planejar melhor e investir de forma mais eficaz em serviços resilientes”, conclui Catherine Russell.

Principais recomendações da Unicef para proteger os direitos das crianças: 

  • Reduzir as emissões e adotar ações ambiciosas para cumprir compromissos internacionais, incluindo a eliminação gradual dos combustíveis fósseis e uma transição justa para energias renováveis;
  • Proteger as crianças e os adolescentes por meio de adaptação climática inclusiva;
  • Redução de riscos de desastres e respostas de perdas e danos que tornem os serviços públicos essenciais resilientes;
  • Garantir que as políticas fundamentais para as crianças sejam incluídas nos planos nacionais de adaptação e nas estratégias setoriais, na governança do risco de desastres, e nos planos de preparação e resposta;
  • Criar escolas seguras e verdes e unidades de saúde resilientes ao clima;
  • Garantir a segurança alimentar das crianças;
  • Tornar os sistemas de alerta precoce eficazes para as crianças e acessíveis aos serviços dos quais dependem;
  • Fortalecer a eficiência dos serviços de água e saneamento, bem como dos sistemas de proteção social responsivos a emergências;
  • Empoderar crianças e jovens para participar de forma significativa na ação climática por meio do investimento em educação e habilidades climáticas;
  • Fortalecimento da capacidade de tomadores de decisão e especialistas de respeitar os direitos das crianças de serem ouvidas, de se expressarem e de participarem nas decisões que afetam suas vidas.

Unicef é a agência da Organização das Nações Unidas (ONU) responsável pela promoção e proteção dos direitos de crianças e adolescentes, com atuação em mais de 190 países e territórios.

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