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Foto: Reprodução/MST Divulgação
A inteligência artificial costuma ser apresentada como uma evolução tecnológica inevitável, conduzida por gigantes do Vale do Silício e orientada pelas regras do mercado. Para o pesquisador chinês Jeff Xiong, porém, essa narrativa esconde escolhas políticas, econômicas e geopolíticas que moldam o desenvolvimento da tecnologia e aprofundam relações de dependência entre o Norte e o Sul Global.
Em Além do Vale do Silício: Inteligência Artificial com Características Chinesas, Xiong propõe uma reflexão sobre modelos alternativos de desenvolvimento da IA, inspirados na experiência chinesa e voltados para a economia real, os serviços públicos e a ampliação das capacidades humanas.
Não por acaso, o lançamento da obra pela editora Expressão Popular ocorreu no dia 16 de maio, o mesmo em que o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) apresentou a Inteligência Artificial da Reforma Agrária (Iaraa), desenvolvida com transferência de tecnologia chinesa para apoiar agricultores e assentamentos rurais.
A coincidência ajuda a ilustrar uma das teses centrais do livro: a de que a IA pode ser apropriada por comunidades, movimentos sociais e países periféricos para enfrentar problemas concretos, e não apenas para gerar lucro às grandes corporações.
Tecnólogo e pesquisador chinês com MBA pela Universidade de Liverpool, Xiong é vinculado à Universidade Normal do Leste da China e ao Instituto para o Desenvolvimento de Alta Qualidade de Sichuan. Também atua junto ao Instituto Internacional de Comunicação de Xangai, ao Instituto Tricontinental e desenvolve pesquisas em parceria com países do BRICS sobre soberania digital e desenvolvimento tecnológico. Em seus trabalhos, sustenta que a inteligência artificial deve ser analisada não apenas como inovação técnica, mas também como um dos principais terrenos de disputa econômica e geopolítica do século 21.
Nesta entrevista ao Extra Classe, Xiong critica o “colonialismo de dados”, questiona a suposta neutralidade tecnológica e argumenta que o desafio do Sul Global não é escolher entre Washington e Pequim, mas construir autonomia tecnológica própria.
Extra Classe – O que é a inteligência artificial e qual a diferença entre a “IA+”? O que significa o “mais” nessa equação?
Jeff Xiong – Em sua forma atual, a IA é um sistema que pode compreender, gerar e raciocinar com linguagem em uma escala massiva. Ela combina modelos de linguagem (Large Language Models – LLMs), infraestrutura computacional e aplicações práticas orientadas por linguagem natural. A diferença entre a visão dominante e a “IA+” é sobre a quem o sistema serve. O Vale do Silício trata a IA como um produto para a economia virtual, chatbots, geradores de conteúdo, servindo a empresas de tecnologia e acionistas. Já a “IA+” trata a inteligência artificial como infraestrutura básica, como a eletricidade. O “+” representa a integração com a economia real: agricultura, manufatura, saúde e governança. Em Yunnan, produtores de mirtilo usam IA para aumentar a produtividade em 30%. Em Xinjiang, duas pessoas gerenciam 200 hectares de algodão com sistemas inteligentes, dobrando a eficiência e reduzindo o uso de água em quase pela metade. Em Zhejiang, a IA monitora licitações públicas para flagrar corrupção – vigiando o poder, não os cidadãos. O “+” significa que a IA entra no solo, na fábrica e na sala de aula, empoderando a sociedade como um todo, não apenas as big techs.
EC – Você critica a naturalização do modelo do Vale do Silício como única via para o desenvolvimento da inteligência artificial. Para quem vê a tecnologia como algo supostamente neutro, qual é o primeiro passo para enxergar a IA como campo de disputa política e econômica?
Xiong – A ideia de que a tecnologia é neutra é uma das construções ideológicas mais eficazes do Vale do Silício. Ao apresentar a IA como um objeto puramente técnico, escondem-se as escolhas políticas presentes em cada camada. Quem financia a pesquisa? De quem são os dados? A quem serve a aplicação? Nenhuma dessas é uma questão técnica; todas são políticas.
O primeiro passo é perguntar quem se beneficia. A empresa estadunidense OpenAI (do ChatGPT) coleta mais de um bilhão de conversas por dia de 300 milhões de usuários – sintomas médicos, planos financeiros, segredos pessoais –, e a justiça dos Estados Unidos determinou que esses dados sejam preservados mesmo se o usuário clicar em “excluir”. Quando o ex-diretor da NSA está no conselho da OpenAI, a tecnologia faz parte do aparato do governo dos EUA. Toda a arquitetura da indústria deles reflete a escolha de servir à acumulação de capital, substituir trabalhadores e tratar usuários como meros consumidores.
A China faz escolhas diferentes: a IA deve servir à economia real – agricultura, manufatura, serviços públicos –, a governança de dados deve evitar monopólios e os trabalhadores deslocados devem ser requalificados para que as pessoas usem e criem ferramentas, não apenas as consumam. Uma vez que você percebe que a tecnologia reflete escolhas, pode começar a fazer escolhas diferentes por conta própria.
EC – Seu conceito “colonialismo de dados” descreve a relação entre os grandes centros de tecnologia e os países periféricos. Como caracteriza esse fenômeno na prática para o trabalhador comum na América Latina?
Xiong – O colonialismo de dados não é uma metáfora. Ele segue o padrão do colonialismo histórico: matérias-primas (dados) são extraídas da periferia, processadas no centro e vendidas de volta como produtos acabados (serviços de IA) – com os lucros e o controle permanecendo no Norte. Quando trabalhadores na América Latina usam WhatsApp ou Google, suas interações geram valor que é capturado integralmente no exterior.
Somente o Google gerou cerca de US$ 36 bilhões em novos ativos de dados em 2024 a partir de usuários globais, mas essa extração não aparece nas contas nacionais dos países de origem. Os dados são tomados a custo zero e os países que os produziram sequer conseguem ver quanto foi tirado.
Para o trabalhador latino-americano, os efeitos se acumulam. No nível ocupacional, a IA do Vale do Silício visa substituir mão de obra para reduzir custos. No nível ideológico, ferramentas como o ChatGPT – treinadas predominantemente com fontes ocidentais em inglês – reproduzem uma visão de mundo específica que o usuário do Sul Global absorve. O trabalhador é, simultaneamente, a fonte dos dados, o consumidor do produto e o sujeito da modelagem ideológica. É uma tripla expropriação que a narrativa da neutralidade tecnológica torna invisível.
EC – Seu livro menciona experiências concretas de apropriação popular, como o Projeto Cecilia em Cuba e a Iaraa no Brasil, desenvolvida pelo MST. Como essas iniciativas se diferenciam dos modelos comerciais?
Xiong – Ambos ilustram que a IA não precisa servir apenas à burguesia do Norte Global. O Sul Global pode se beneficiar para romper desigualdades de informação.
O Projeto Cecilia, da Universidade de Havana, é um modelo de 2 bilhões de parâmetros treinado puramente em texto cubano: jornais, leis, literatura e música nacional. Construído sobre uma base de código aberto de Barcelona, ele opera mesmo com a internet instável e os apagões de Cuba, lançado sob licença livre. Não exigiu nuvem americana nem infraestrutura bilionária, apenas fundamentos abertos e determinação local.
A Iaraa foi desenvolvida pelo MST com transferência de tecnologia chinesa. Trata-se de uma inteligência alimentada por mil livros sobre reforma agrária, agroecologia e organização camponesa. O que os distingue da IA comercial é a finalidade. A IA corporativa extrai dados para o lucro; Cecilia e Iaraa colocam o conhecimento à disposição de quem precisa.
EC – Você diz que a China conta com cerca de 200 milhões de robôs industriais e que muitos operários foram requalificados. Como conciliar o avanço da automação com a preservação do emprego e dos direitos trabalhistas?
Xiong – Esse número soa alarmante se você assume a lógica ocidental de que a automação serve para demitir e cortar custos. Na China, o contexto é outro.
Primeiro, há a questão demográfica: a população em idade ativa está se contraindo e a projeção é perder 92 milhões de trabalhadores até 2035. A IA e a robótica preenchem um vazio demográfico real, não geram desemprego.
Segundo, há a filosofia do processo; o objetivo é libertar os humanos de trabalhos perigosos e exaustivos. O Shanghai Construction Group implantou robôs que removem operários de espaços tóxicos e soldagens de risco. Entre 2013 e 2019, a automação reduziu os acidentes de trabalho em 68,5% e as fatalidades em 71% nessas frentes. O operário que antes amarrava vergalhões sob calor de 40 graus foi requalificado como operador da máquina.
Terceiro, há o desenho institucional; a China subsidia o treinamento profissional de 30 milhões de pessoas, e os resultados de manutenção do emprego são incorporados às avaliações de desempenho político das autoridades locais. A conciliação depende de escolhas de valor e mecanismos estatais para gerenciar a transição. Não se trata de copiar a China, mas de aplicar o mesmo arcabouço de análise.
EC – Esse modelo pode ser replicado em países com menor capacidade de investimento estatal?
Xiong – A replicação direta não é viável. A IA+ chinesa se ancora em uma infraestrutura bilionária de data centers e redes 5G que a América Latina não possui. Mas a lição aqui não é como copiar, mas o que aprender.
Primeiro, a tecnologia de código aberto derruba a barreira financeira. O modelo chinês DeepSeek R1 foi treinado por uma fração do custo das iniciativas americanas comparáveis e disponibilizado sob licença livre MIT, com uma API 16 vezes mais barata que as alternativas nos Estados Unidos. Cecilia e Iaraa provam que é perfeitamente possível construir IA funcional com orçamentos realistas usando código aberto e conhecimento local.

Segundo, a coordenação regional multiplica a capacidade. A América Latina atrai pouco mais de 1% do investimento global em IA. Nenhum país resolve isso sozinho. Mas unindo o plano de IA do Brasil, a infraestrutura universitária da Argentina e a expertise em código aberto de Cuba, ganha-se escala.
Terceiro, o método importa mais que o hardware. A adoção popular depende de educação, aplicativos leves e resolução de problemas reais da comunidade, algo que qualquer município latino-americano pode iniciar.
EC – Você critica a chamada “cultura do usuário” e afirma que jargões técnicos servem para afastar o cidadão comum da produção tecnológica. Como reverter essa lógica?
Xiong – A “cultura do usuário” é um grande trunfo ideológico. Nos anos 1970, os computadores ligavam com uma linha de comando dizendo “Pronto” – um convite para você programar. Ao longo das décadas, as interfaces fecharam o sistema.
O smartphone hoje acorda com aplicativos pré-instalados que te convidam apenas a consumir. A palavra “usuário” pressupõe que você só serve para consumir, enquanto termos como RAG ou transformer funcionam como feitiços para manter os leigos do lado de fora.
Os lucros do setor dependem desse monopólio. Duas frentes tornam a reversão possível. A primeira são os modelos de código aberto livres para modificação. A segunda é que os grandes modelos de linguagem romperam a barreira histórica entre programação formal e linguagem humana.
Agora, a linguagem natural aciona a computação diretamente. A Iaraa do MST prova isso: militantes do movimento, não engenheiros, construíram a ferramenta usando instruções em português simples. Mas isso exige educação popular. Nos workshops que realizo pelo Sul Global, trabalhadores e camponeses aprendem a criar seus próprios fluxos de trabalho.
EC – Você afirma que a substituição da dependência dos Estados Unidos por uma dependência da China seria uma tragédia para o Sul Global. Poderia detalhar esse alerta?
Xiong – Faço essa declaração deliberadamente como um pesquisador chinês. Se os países do Sul Global apenas trocarem um império por outro, a estrutura de subordinação permanece; a periferia continua exportando dados e importando serviços processados. É fato que as infraestruturas diferem.
O marco regulatório americano impõe termos unilaterais e fechados sobre onde os dados rodam.
O modelo chinês, por sua vez, tende a favorecer acordos abertos à negociação de transferência de tecnologia entre estados soberanos. Essa diferença importa, mas não torna a dependência aceitável. O que baliza a soberania real não é o parceiro escolhido, mas quem define as regras. O contrato recente da Argentina com a empresa Palantir mostra como a infraestrutura de dados estrangeira aprofunda o controle social e a dependência estatal.
Substituir a Palantir por um fornecedor chinês, sem alterar quem controla os servidores e quem dita as regras nacionais, seria exatamente a mesma dependência, apenas com um uniforme diferente. O Estado receptor precisa usar ferramentas de diagnóstico para exigir que as corporações estrangeiras se curvem à sua estratégia nacional.
EC – O que o Sul Global precisa fazer para construir uma verdadeira soberania tecnológica?
Xiong – Primeiro, entender que o sujeito da soberania digital é o Estado. O modelo multi-stakeholder, em que corporações sentam-se à mesa em igualdade com governos, dilui a autoridade pública. Só o Estado tem o poder de ditar leis e peitar os monopólios.
Segundo, a cooperação internacional deve ser liderada pelo Estado a partir de marcos estratégicos, usando ferramentas como o Índice de Soberania Digital (DSI) para avaliar os termos de parceria de forma realista.
Terceiro, os dados precisam ser reconhecidos legalmente como fator de produção nas contas nacionais. A legislação deve barrar o fluxo transfronteiriço ilegal e taxar a extração que hoje as big techs fazem a custo zero.
Quarto, é preciso cultivar capacidade doméstica nas universidades públicas e nos centros de pesquisa. A soberania só se sustenta onde há engenharia nacional.
Por fim, a soberania não é apenas um projeto de gabinete. Ela exige o “construtor de pés descalços”. Quando um assentado do MST usa a IA para diagnosticar a lavoura, ou uma pesquisadora cubana treina uma rede local, eles estão construindo soberania a partir de baixo.
EC – Diante do cenário de sanções econômicas e guerras comerciais, que caminhos concretos existem para a cooperação tecnológica no BRICS e no Sul Global?
Xiong – Existem três caminhos práticos que demandam criatividade institucional.
O primeiro é adotar a IA de código aberto como fundamento compartilhado. Modelos abertos como DeepSeek ou Qwen oferecem uma base não monopolista. A Índia e o Brasil já desenham suas estratégias nacionais de IA baseadas em matrizes abertas. Os países do BRICS deveriam coordenar conjuntamente os métodos de localização e as auditorias de segurança dessas ferramentas.
O segundo caminho é o uso do Índice de Soberania Digital (DSI) como ferramenta diagnóstica mútua. Desenvolvido em parceria com o pesquisador brasileiro Sérgio Amadeu da Silveira, o DSI mede a independência em infraestrutura e dados e já foi aplicado em países como Brasil, Rússia, África do Sul, Índia e Argentina. Ele permite identificar vulnerabilidades comuns e formular respostas multilaterais contra abusos corporativos.
O terceiro são os Centros de Capacitação Cybersyn IA, que estamos desenhando junto à Tricontinental, Instituto de Pesquisa Social. São estruturas que unem o método técnico chinês à capilaridade dos movimentos locais para treinar pesquisadores, comunicadores e trabalhadores na criação de mídias e ferramentas de IA popular. Já capacitamos turmas no Brasil, Gana, Zâmbia e Zimbábue.
A lógica desses três caminhos é clara: os modelos abertos não pertencem a nenhum país, o DSI avalia a todos igualmente e os centros geram autonomia local. A escolha real para o Sul Global não é entre Washington e Pequim; é entre a dependência e a soberania.