Opinião
Os novos oráculos da saúde
Entre promessas de prevenção e riscos de diagnósticos desnecessários, é necessário ter cautela no uso…
Pediram para o Billy Wilder resumir numa frase quem era o Don Siegel e ele disse que se um dia acordasse numa cama estranha ao lado de uma prostituta morta com uma faca espetada no peito, chamaria o Don Siegel, que saberia o que fazer. Não li o resto para descobrir que poderes ou conexões tinha Don Siegel, lenda do cinema como ele, para salvar o Billy Wilder, mas fiquei pensando na frase. Você pode dividir sociedades inteiras de acordo com o que as pessoas fariam se um dia acordassem ao lado de uma prostituta assassinada sem saber como fora parar ali. Já que, decididamente, não é uma situação em que você pode chamar a mãe, ou um conselheiro espiritual, ou, em muitos países, a polícia. E também pensei: todo o mundo deveria ter um amigo como o Don Siegel para momentos assim – mas só para momentos assim. No resto do tempo, não seria alguém com quem você gostaria de conviver.
Os escritores que escreviam com penas de ganso escreviam muito mais do que nós, e acho que existe uma relação direta entre dificuldade e quantidade – e qualidade. Não há nada parecido, na era dos escritores eletrônicos, com o volume de correspondência dos escritores a pena, que além de manuscrever livros que pareciam monumentos manuscreviam cartas que pareciam livros. Quanto mais fácil ficou escrever, menos os escritores escrevem. Os livros ficaram mais finos e a correspondência se reduziu a latidos digitais, breves mensagens utilitárias, tecla “send” e pronto. Já um George Bernard Shaw escrevia uma peça atrás da outra com introduções maiores do que a peça e ainda tinha tempo para escrever cartas para todo o mundo. Geralmente xingando-os, o que exigia mais tempo e palavras. Desconfio que a nova técnica também constrangeu o jornalismo. As barulhentas redações pré-eletrônicas eram áreas conflagradas onde o combate com o teclado duro era um teste de resolução e resistência. Depois vieram os computadores e a briga diária com o instrumento de trabalho e, por extensão, com a empulhação oficial e com as idéias recebidas, foi substituída pela facilidade, e pela reverência. Enfim, pelo jornalismo pacífico. E isso que a gente muitas vezes confunde com subserviência ou abandono da crítica ou resignação ao Pensamento Único pode muito bem ser apenas um efeito dos teclados silenciosos.