El Niño acende alerta para gaúchos entre junho e agosto

Especialistas recomendam prudência e atuação do poder público; Não há previsão, mas é necessário acompanhamento de condições que possam ocasionar enchentes como as de 2024
El Niño acende alerta para gaúchos entre junho e agosto

Resgate de moradores dos bairros Humaitá e Sarandi no Viaduto José Eduardo Utzig, zona norte de Porto Alegre, em maio de 2024

Foto: Giulian Serafim/PMPA

Modelos climáticos apontam para a formação de chuvas acima da média no Rio Grande do Sul durante o segundo semestre. A probabilidade de formação do El Niño sobe para 62% entre junho e agosto e acende alerta para os gaúchos, que ainda se recuperam da tragédia de maio de 2024.

As previsões meteorológicas sinalizam o aquecimento das águas do Oceano Pacífico Equatorial, o que influencia diretamente na gravidade do El Niño, e gera a tendência de maior frequência e volume de chuvas no estado. O alerta é do Centro Interinstitucional de Previsão e Observação de Eventos Extremos (Ciex), divulgado no dia 1º de abril.

O El Niño deve começar a se formar no outono e ganhar força a partir do segundo semestre. Como em todo El Niño, deve chover muito no sul e fazer muito calor no norte do país. Quanto mais quentes as águas do Pacífico, mais forte o fenômeno.

Não há previsão de episódio parecido com as enchentes de 2024. Especialistas recomendam prudência, atuação do poder público e acompanhamento de condições que possam ocasionar cenário daquele ano: chuvas intensas combinadas à grande área de baixa pressão atmosférica e à chegada de frente fria.

“Às vezes, não importa se é fraco, médio ou forte: El Niño é El Niño. Ou seja, chove mais do que o normal na região sul e sudeste no Brasil”, avisa o coordenador do Grupo de Pesquisas em Desastres Naturais (GPDEN) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Masato Kobiyama.

Cenário semelhante a maio de 2024 aconteceria “a depender da combinação da dinâmica atmosférica. Mas vai dar muita chuva. Caso ocorra muita chuva logo depois de longa estiagem, uma ou duas semanas sem chuva, pode não acontecer”, pondera Kobiyama.

Previsibilidade e necessidade de investimento

Previsões com maior confiabilidade para eventos de chuva intensa e riscos hidrológicos costumam englobar o prazo de até sete dias, o que requer dados atualizados.

Relatório do Instituto de Pesquisas Hídricas (IPH) da Ufrgs e do Serviço Geológico do Brasil (SGB) analisou bacias do estado como o Guaíba e Taquari e indicou que previsões confiáveis de cheias só podem ser emitidas entre 12h e 72h de antecedência.

Fonte: IPH da Ufrgs e SGB

Pesquisador Fernando Fan, da Ufrgs

Foto: Igor Sperotto

O hidrólogo e pesquisador Fernando Fan, da Ufrgs defende sistemas de previsão para preservar vidas e reduzir danos econômicos causados pelos desastres no RS, que tem histórico de eventos hidrológicos extremos.

“Para cada R$ 1 investido, tu tens um retorno de R$ 20 em danos evitados. Então, talvez, esses R$ 80 bilhões de danos em 2024, tivessem sido de R$ 4 bilhões se tivéssemos sistemas operando, dando previsões e avisando com antecedência. Mas para isso, tu tens que ter as pessoas qualificadas”, diz Fan.

Ele compartilha o exemplo do Reino Unido, que apesar da área menor que o RS, possui pelo menos 12 profissionais atuando na previsão de cheias, 24h por dia. “Em 2024, a gente tinha no estado uma sala de situação que tinha dois profissionais fazendo previsão para todo RS. Então, assim, claramente tem um desbalanço na proporção, né? Então, eu entendo que a gente sofreu com uma falta grande de profissionais”, avalia Fan.

Crise climática e serviço público

A estruturação de carreiras para lidar com a crise climática deve ser pauta. Contratações temporárias de funcionários da Defesa Civil dificultam o acúmulo e compartilhamento de experiências na prevenção e recuperação de desastres, dado que substituições podem acompanhar mudanças na gestão pública.

Funcionários públicos da Defesa Civil devem ter estabilidade profissional, com transformação em cargos de carreira e seleção a partir de concursos públicos, da esfera municipal a federal, defende Kobiyama.

A estruturação das carreiras resultaria no fortalecimento das coordenadorias estadual e municipal de proteção e defesa civil, e dos Núcleos Comunitários de Proteção e Defesa Civil (Nupdec), formados por moradores voluntários que atuam no monitoramento de situações de risco, como as chuvas, aplicando protocolos de segurança e orientando rotas de fuga.

Professor Masato Kobiyama, da Ufrgs

“Dois anos recebendo muito dinheiro, e o Estado não treinou vítimas, esse é o maior problema. Ausência de Nupdec causou calamidade”, relembra o pesquisador. E completa: “município tem que preparar a sociedade, só que a sociedade não consegue esperar e o município não está preparado”.

As prefeituras de Porto Alegre e Região Metropolitana ainda não concluíram as obras para se preparar contra os efeitos do El Niño no segundo semestre. Os pesquisadores da Ufrgs, Fernando Fan e Masato Kobiyama, do Instituto de Pesquisas Hídricas, acompanham o cenário de evolução do El Niño para 2026.

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