CULTURA

A Feira do Livro dentro de um link

Com o modelo virtual, a Feira acabou encolhendo: das mais de cem bancas que normalmente ocupavam a praça e seus arredores, a 66ª edição terá 57 expositores
Por Flávio Ilha / Publicado em 14 de outubro de 2020
Diferente das anteriores, a 66ª edição, no ano da pandemia, será virtual

Foto Diego Lopes/ Divulgação

Diferente das anteriores, a 66ª edição, no ano da pandemia, será virtual

Foto Diego Lopes/ Divulgação

Depois de 65 anos ocupando a Praça da Alfândega num dos pontos mais centrais de Porto Alegre, a Feira do Livro também se rendeu ao bichinho microscópico que botou o mundo de joelhos e terá toda a edição de 2020 realizada de forma virtual, sem público, sem bancas, sem autógrafos, sem conversas à sombra dos jacarandás, até sem os pequenos furtos que a tornaram conhecida em toda a América Latina. Com previsão de iniciar no próximo dia 30 de outubro, a 66ª Feira do Livro de Porto Alegre caberá toda num link: www.feiradolivro-poa.com.br.

“Até pensávamos, quando foi declarada a pandemia, em março, que pelo menos uma versão híbrida poderíamos realizar, com as bancas na praça e eventos literários de modo remoto. Mas já em maio, com o agravamento da situação, percebemos que não seria possível, então partimos para uma solução radical de realizar toda a Feira on-line. Assim já ficamos prontos para o futuro”, conta o presidente da Câmara Rio-grandense do Livro (CRL), que realiza o evento, Isatir Filho.

Prontos para o futuro significa, neste momento, uma coisa essencial: tecnologia. E não foi fácil, como relata o dirigente da CRL, integrar os associados a esse novo modelo de relacionamento com o público, com os autores, com as editoras, com o mercado. “Muitos livreiros ainda não se sentem seguros com os desafios do mundo virtual, principalmente em relação às vendas, e abriram mão de participar”, revela Isatir. A Feira terá uma vitrine virtual, onde cada livraria ou editora poderá mostrar dez títulos de sua escolha. A comercialização será direcionada para o e-commerce de cada associado.

Com o modelo virtual, a Feira acabou encolhendo: das mais de cem bancas que normalmente ocupavam a praça e seus arredores, a 66ª edição terá 57 expositores. A programação de saraus, oficinas, debates estará 60% menor, especialmente nas agendas que envolvem escolas. O custo, naturalmente, também despencou, caindo dos R$ 2 milhões para cerca de R$ 700 mil. Os autógrafos, que reuniam leitores e autores num grande pavilhão central, simplesmente desapareceram. “Estamos sugerindo que as editoras comercializem seus livros já autografados. Mas isso, é claro, depende de logística, da disponibilidade dos autores. Sabemos que não será possível em todos os casos”, complementa.

Organização do evento já projeta a manutenção de edições híbridas a partir deste ano

Foto: Diego Lopes/ Divulgação

Organização do evento já projeta a manutenção de edições híbridas a partir deste ano

Foto: Diego Lopes/ Divulgação

Mesmo encolhendo, o presidente da CRL acredita que a Feira terá maior alcance que na edição presencial justamente pela possibilidade de ser acessada remotamente por mais gente – gente que, no mundo real, não teria condições de sair de uma cidade do interior ou da periferia da capital para acompanhar a programação no Centro de Porto Alegre. A programação, aliás, continua rica: a abertura, às 19h30 do dia 30 de outubro, terá uma live da escritora chilena Isabel Allende. Também haverá homenagens ao poeta Oliveira Silveira e ao ficcionista Sérgio Faraco, além de eventos com Conceição Evaristo, Ailton Krenak, Rosa Montero, James Green, Mariana Enriquez.

“Fizemos uma lista de autores que nunca vieram à Feira e que o modo on-line poderia facilitar, já que não teríamos questões de logística a resolver. A Isabel Allende aceitou logo que recebeu o convite. O ex-marido dela, Willie Gordon, veio à Feira quando ainda eram casados e ela lembra que Gordon falou muito sobre a cidade e a feira no meio da praça, entre as árvores”, relata a curadora da programação geral, Lu Thomé. Para montar a programação, em um período de dois meses e meio, ela teve ajuda da experiente produtora Sandra La Porta.

Antes da programação oficial, porém, haverá três sessões de “aquecimento” para a Feira virtual, nos dias 13, 20 e 27 de outubro. Ou, como diz Isatir, de teste, já que o suporte tecnológico precisa ter capacidade para suportar milhares de pessoas ao mesmo tempo na plataforma. “O on-line facilita a troca de ideias. É um modelo que vai seguir, especialmente depois de 2020. Cada vez mais nas nossas vidas e nos nossos trabalhos. A Feira já estuda, para os próximos anos, um modelo de evento híbrido, que volte a privilegiar o presencial mas que não deixe de lado as conquistas que estamos alcançando com o digital”, completa a curadora.

 

Pauta identitária influiu na escolha do patrono

O patrono Jeferson Tenório: representação da população negra invisibilizada

Foto: Carlos Macedo/ Cia. das Letras/ Divulgação

O patrono Jeferson Tenório: representação da população negra invisibilizada

Foto: Carlos Macedo/ Cia. das Letras/ Divulgação

Carioca de nascimento e há 30 anos radicado no Rio Grande do Sul, o escritor e professor Jeferson Tenório será o patrono da 66ª Feira do Livro de Porto Alegre. Escolhido por unanimidade entre os associados da CRL, num formato de eleição diferente do usual, Tenório é autor de três livros: O beijo na parede (Sulina, 2013), Estela sem Deus (Zouk, 2018) e O avesso da pele (Cia das Letras, 2020). O patrono conversou com a reportagem do Extra Classe sobre sua escolha:

Recebeu com surpresa essa indicação para patrono?
De fato foi uma surpresa em função do perfil dos ex-patronos: autores brancos, mais velhos e com uma obra extensa. Embora frequente a feira há mais de 20 anos, jamais passou pela minha cabeça ser indicado a patrono algum dia. Acho que a mudança dos critérios também dialogam com as demandas do nosso tempo, assim como a entrada de uma curadoria, regida pela Lu Thomé, marca o início de uma mudança de paradigma e que me parece histórica para a Feira. Ser o primeiro patrono negro em 66 edições talvez revele que o estado, como um todo, precise pensar e rever quanto às demandas de uma população negra invisibilizada por muitos anos, em vários aspectos.

Quais atividades deverá ter um patrono em tempos de feira virtual?
Com a feira neste formato, perde-se o contato presencial, os apertos de mão, os abraços e todos aqueles encontros significativos das relações humanas. Por outro lado, ganha-se na possibilidade de interação on-line nas redes. Tenho interagido com muitos leitores e frequentadores da Feira do Livro, e isso tem sido muito gratificante. Durante a feira participarei de algumas mesas de discussões on-line e as interações poderão ocorrer nos chats e comentários da plataforma.

Você é professor, além de escritor. Como avalia o ensino da literatura nas escolas, especialmente na rede pública?
Bem, estou afastado do ensino público há quase dez anos. No entanto, percebo, através de amigos e colegas que estão na linha de frente da escola pública, que existem projetos e professores fazendo trabalhos incríveis com a literatura. No entanto, esses projetos não dão conta da dimensão do ensino dentro de uma escala regional e nacional. Ou seja, as boas iniciativas esbarram no descaso do poder público e na falta de um planejamento que possa atender as escolas no que se refere ao acesso ao livro, por exemplo.

Você fez o percurso desejado por muitos escritores: começou em editoras locais, foi adotado em escolas, passou a ser publicado em uma grande companhia, virou best-seller. Sobra tempo para escrever?
Bem, minha profissão de professor sempre deixou meu tempo escasso, toda aquela rotina de corrigir provas, trabalhos e preparar aulas me deram uma certa disciplina para escrever nos poucos espaços de tempo livres. No entanto, com essa visibilidade que o livro atingiu, tenho encontrado mais dificuldades para escrever, houve um aumento de demandas para feiras, eventos, entrevistas e pedidos de textos para jornais, mas procuro estabelecer prioridades e respeitar os prazos, assim consigo encontrar algumas poucas horas para a escrita.

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