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Coluna de Honório Lemes no município de Dom Pedrito
Foto: Divulgação
Quando se fala na Revolução de 1923, a memória coletiva gaúcha costuma evocar chimangos e maragatos, disputas entre caudilhos e episódios de violência que atravessaram gerações. Para o professor e pesquisador Elvio Alberto Walter, entretanto, um dos principais problemas na compreensão desse episódio é justamente a permanência de interpretações simplificadas e, muitas vezes, equivocadas sobre o conflito.
“Ao se falar em chimangos, maragatos ou Revolução de 1923, logo vem o tema da degola. Existem músicas gaúchas que tratam de 1923 e falam disso. Mas essa prática não ocorreu naquele conflito. As execuções foram coibidas pelos dois lados e muitos prisioneiros eram libertados após os combates. A degola foi uma prática associada à Revolução Federalista de 1893”, observa.
Chefe de pesquisa do projeto Ecos de 1923 – A Última Guerra dos Gaúchos, Elvio acredita que a própria importância histórica da Revolução continua sendo subestimada mais de um século depois dos acontecimentos.
“A importância da Revolução também é subestimada. Ela foi o estopim para a mudança de um sistema eleitoral e para a criação de uma Justiça Eleitoral.”
É justamente essa revisão histórica que orienta a Mostra, que será realizada entre os dias 9 e 11 de junho na Cinemateca Paulo Amorim, da Casa de Cultura Mario Quintana (CCMQ), em Porto Alegre.
Reunindo três documentários de longa-metragem dirigidos por Henrique de Freitas Lima, o projeto procura recuperar a complexidade de um conflito frequentemente reduzido a estereótipos políticos e rivalidades regionais.
Os filmes são resultado de dois anos de pesquisa realizados entre 2023 e 2025, período em que uma equipe formada por pesquisadores, historiadores, produtores culturais e realizadores percorreu diferentes regiões do Rio Grande do Sul em busca de documentos, imagens e testemunhos relacionados à guerra civil que opôs partidários de Borges de Medeiros e de Joaquim Francisco de Assis Brasil.
O trabalho exigiu um amplo esforço de recuperação documental. Segundo Elvio, a pesquisa começou nos acervos do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul (IHGRS) e do Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul, mas precisou ser ampliada com material proveniente de museus, arquivos públicos, institutos históricos do interior e coleções particulares.
“Os filmes não têm narração. São as falas que vão construindo o enredo da história. Minha função foi buscar imagens, documentos, telegramas, mapas, cartas, bilhetes e fotografias da época que pudessem ilustrar esses relatos”, conta.
Entre as principais fontes utilizadas estão os jornais A Federação e Correio do Povo, que acompanharam os acontecimentos de 1923 e ajudaram a reconstruir episódios pouco conhecidos da Revolução.
A principal dificuldade não foi encontrar documentos, mas processar parte deles.
“O maior empecilho foi identificar muitas imagens que não têm qualquer referência sobre quem são as pessoas ou os lugares retratados. Estudiosos da Revolução, muitos deles autodidatas, ajudaram muito nesse trabalho”, explica.
Além da pesquisa em acervos, o projeto apoiou-se em ampla revisão bibliográfica. Elvio afirma ter consultado cerca de 22 livros sobre o tema, utilizando como referências obras clássicas como Mensagem a Poucos, de Antero Marques, e A Campanha de 1923, de Flores da Cunha.
A partir desse esforço de investigação, os realizadores produziram inicialmente nove documentários dedicados a municípios diretamente ligados ao conflito. Posteriormente, o material foi reorganizado em três longas-metragens que serão exibidos na Mostra e que também servem de base para a futura série Os Caudilhos, atualmente em desenvolvimento.
A revisão de interpretações cristalizadas sobre a Revolução de 1923 tornou-se um dos eixos centrais do projeto.
Segundo Walter, parte da memória popular mistura acontecimentos de diferentes conflitos, especialmente da Revolução Federalista de 1893, marcada por episódios de extrema violência.
A associação entre a Revolução de 1923 e a prática da degola é um exemplo disso.
O diretor Henrique de Freitas Lima afirma que a preocupação em evitar simplificações também orientou a construção narrativa dos documentários.
“Como tratar com equilíbrio os dois lados e não demonizar figuras como Borges de Medeiros? Seu lado autoritário acabou empanando uma importância histórica fundamental na modernização do estado. Procuramos ouvir diferentes fontes e deixar que o espectador tire suas próprias conclusões.”
Para o cineasta, o objetivo não foi produzir uma obra de exaltação nem de condenação, mas estimular uma leitura crítica do período.
Embora personagens como Borges de Medeiros, Assis Brasil, Flores da Cunha e Honório Lemes ocupem lugar de destaque na narrativa histórica, os realizadores procuraram lançar luz sobre aqueles que normalmente permanecem à margem dos relatos oficiais.
Ao percorrer municípios diretamente envolvidos nos combates, a equipe reuniu depoimentos de descendentes de combatentes, relatos familiares e memórias transmitidas por gerações.
Henrique destaca que a escolha da canção Sabe Moço, de Francisco Alves, para a abertura da série e dos documentários foi também uma homenagem aos combatentes anônimos.
“Demonstramos nosso respeito a todos os combatentes anônimos que atuaram ao lado das grandes lideranças”, destaca.
Segundo Henrique, episódios ambientados em Alegrete e São Francisco de Assis revelam de forma particularmente intensa os impactos humanos da guerra, incluindo famílias divididas entre chimangos e maragatos e comunidades marcadas pelos enfrentamentos.
Ao refletir sobre o centenário da Revolução de 1923, Henrique identifica paralelos entre aquele período e a polarização política contemporânea: “A atual polarização é um fenômeno semelhante no que se refere às diferentes narrativas de cada lado e à caracterização dos adversários.”
Ele cita o papel desempenhado pela imprensa da época na construção de imagens sobre aliados e adversários políticos, mas ressalta uma diferença importante.
“O que difere é o respeito e a admiração entre lideranças contrárias daquele momento. Hoje temos uma guerra de destruição de reputações e acusações sem comparação.”
A observação ajuda a explicar o próprio título da Mostra. Para os realizadores, os ecos de 1923 não estão apenas na memória do conflito, mas também na permanência de disputas narrativas e tensões políticas que atravessam o presente.
Embora não tenha sido concebido como material didático formal, o projeto pretende contribuir para ampliar o conhecimento sobre um período ainda pouco explorado nas escolas.
Elvio afirma que a equipe optou por não produzir materiais pedagógicos específicos. “Pensamos os filmes mais como uma ferramenta de motivação para o conhecimento e para o aprofundamento de um tema que ainda é pouco trabalhado nos bancos escolares e frequentemente mal compreendido pela sociedade.”
Os realizadores também se colocam à disposição para participar de exibições comentadas e debates em escolas, universidades e instituições interessadas em discutir a Revolução de 1923.
Mais do que recuperar fatos históricos, Ecos de 1923 procura estimular uma reflexão sobre memória, democracia, conflito político e reconciliação. Ao revisitar um dos episódios mais importantes da história gaúcha, os documentários ajudam a compreender não apenas o passado, mas também dilemas que permanecem presentes na sociedade brasileira.

Henrique de Freitas Lima, cineasta
Foto: Divulgação/Acervo
Diretor de Ecos de 1923, Henrique de Freitas Lima fala na entrevista a seguir sobre memória, polarização e os desafios de revisitar um dos conflitos mais importantes da história gaúcha.
EXTRA CLASSE – A Revolução de 1923 completou seu centenário recentemente. Olhando para o cenário atual, quais os principais “ecos” que você enxerga daquela cultura de polarização e disputa pelo poder na política de hoje?
Henrique de Freitas Lima – A atual polarização é um fenômeno semelhante no que se refere às diferentes narrativas de cada lado e à caracterização dos adversários nas mídias das duas épocas. Se o jornal A Federação, dos republicanos, em 1923, alcunhava os revolucionários de “bandoleiros”, igual era a retórica do outro lado contra Borges de Medeiros, que mereceu do dissidente e primo Ramiro Barcellos o inesquecível poema satírico Antônio Chimango, de 1915. O que difere, entretanto, é o respeito e a admiração entre as lideranças contrárias daquele momento, como se verifica nas oportunidades em que Honório Lemes teve para matar Flores da Cunha em combate e não o fez. Hoje temos uma guerra de destruição de reputações e acusações sem comparação.
EC – O documentário serve de base para a futura série Os Caudilhos. Como Ecos de 1923 equilibra o protagonismo dessas grandes lideranças com a realidade dos combatentes e da população que viveu o conflito?
Henrique de Freitas Lima – Ao escolher como trilha sonora da abertura da futura série e dos filmes Ecos de 1923 a clássica canção Sabe Moço, de Francisco Alves, em nova versão com arranjo de Sérgio Rojas e voz de Vitor Hugo, demonstramos nosso respeito a todos os combatentes anônimos que atuaram ao lado das grandes lideranças. No corpo das obras, são fortes os depoimentos de pessoas que perderam familiares e as narrativas sobre episódios envolvendo famílias divididas entre chimangos e maragatos. Isso aparece especialmente nos episódios de Alegrete e São Francisco de Assis.
EC – Documentar um conflito que ainda desperta paixões herdadas entre chimangos e maragatos é um desafio. Como foi o processo de construção da narrativa para escapar dos mitos tradicionais e entregar um olhar crítico sobre a nossa história?
Henrique de Freitas Lima – Trata-se, com certeza, do maior desafio enfrentado. E vencido. Como tratar com equilíbrio os dois lados e não demonizar figuras como Borges de Medeiros, por exemplo? Seu lado autoritário, com o tempo, acabou empanando sua importância fundamental como gestor austero e absolutamente honesto que modernizou o Rio Grande do Sul e construiu as bases do que hoje somos. Ouvindo diferentes fontes e recuperando criticamente os fatos, fizemos uma obra que não toma partido e deixa o espectador tirar suas próprias conclusões. Também procuramos romper a forma tradicional de tratar essas temáticas apenas para o público gaúcho.
EC – Como foi o processo de triagem, pesquisa e montagem para estruturar esse resgate histórico no formato de uma trilogia? Houve algum tema que acabou ficando de fora no corte final?
Henrique de Freitas Lima – O mérito absoluto dessa construção é do montador Rafael Roso Berlezi, que também é diretor de fotografia. Quando discutíamos com historiadores e parceiros como exibir os nove episódios locais em Porto Alegre, surgiu a ideia de organizá-los em três longas-metragens. Rafael propôs um agrupamento que cria uma progressão emocional crescente até chegar ao desfecho em Pedras Altas, onde o público encontra algo concreto e simbólico: a restauração do castelo construído por Assis Brasil e o local onde foi firmado o pacto que encerrou o conflito. Estou muito contente com o resultado e acredito que realizamos o mais ambicioso resgate audiovisual já feito sobre esse período da história gaúcha.
EC – Além de registrar o passado, o cinema documental possui uma forte dimensão social e pedagógica. Qual é a principal reflexão que você espera despertar no público?
Henrique de Freitas Lima – O documentário produz uma emoção única. Quando realizado com apelo emocional e ritmo narrativo, consegue unir função social, pedagógica e experiência estética. Esperamos que o público conheça melhor um episódio pouco valorizado da história brasileira e, ao mesmo tempo, se surpreenda com imagens extraordinárias da época, como as registradas pelo cineasta amador Benjamin Camozato. Ver personagens históricos como Honório Lemes, Zeca Netto, Estácio Azambuja e Nepomuceno Saraiva em imagens produzidas durante aqueles acontecimentos é algo impressionante. Esperamos despertar tanto o interesse pela história quanto o encantamento diante desse patrimônio audiovisual.
Os termos “chimango” e “maragato” marcaram a política gaúcha entre o final do século 19 e as primeiras décadas do século XX.
Os chimangos eram os partidários do Partido Republicano Rio-Grandense (PRR), liderado por Júlio de Castilhos e, posteriormente, por Borges de Medeiros. Defendiam um modelo político centralizado, inspirado pelo positivismo, que marcou a organização institucional do estado durante a Primeira República.
Os maragatos, por sua vez, constituíam a principal oposição ao castilhismo. O termo surgiu durante a Revolução Federalista de 1893 e passou a identificar diferentes correntes oposicionistas. Em 1923, reuniram-se em torno da candidatura de Joaquim Francisco de Assis Brasil contra a reeleição de Borges de Medeiros.
Apesar das rivalidades e dos confrontos armados, a Revolução de 1923 terminou com o Pacto de Pedras Altas, considerado um marco da conciliação política gaúcha e um antecedente de reformas institucionais que influenciariam a política brasileira nas décadas seguintes.
Novembro de 1922 | Borges de Medeiros é reeleito para um quinto mandato como presidente do Rio Grande do Sul. A oposição, liderada por Joaquim Francisco de Assis Brasil, denuncia fraudes e contesta o resultado.
Janeiro de 1923 | Tem início a Revolução de 1923. Grupos oposicionistas armados passam a enfrentar as forças governistas em diferentes regiões do estado.
Primeiro semestre de 1923 | Os combates se espalham pelo interior gaúcho. Municípios como Uruguaiana, Alegrete, São Gabriel, Santana do Livramento, Rosário do Sul, São Francisco de Assis e Camaquã tornam-se cenários de confrontos entre maragatos e chimangos.
Durante o conflito | Lideranças como Honório Lemes, Zeca Netto, Flores da Cunha e Nepomuceno Saraiva ganham projeção militar e política. A guerra mobiliza milhares de combatentes e afeta diretamente comunidades rurais e cidades do interior.
Dezembro de 1923 | É assinado o Pacto de Pedras Altas, acordo que encerra o conflito. O entendimento prevê mudanças nas regras políticas do estado e limita a possibilidade de reeleições sucessivas.
Anos seguintes | As tensões e debates desencadeados pela Revolução de 1923 contribuem para o fortalecimento das discussões sobre reforma política e eleitoral no país.
Em 1932 | Durante o governo provisório de Getúlio Vargas é criado o primeiro Código Eleitoral brasileiro e instituída a Justiça Eleitoral, mudanças que pesquisadores identificam como parte de um processo histórico que teve na Revolução de 1923 um de seus marcos políticos mais importantes.
SERVIÇO
O quê: Ecos de 1923 – Mostra de filmes de Henrique de Freitas Lima (documentário em três episódios + debate)
Quando: dias 9, 10 e 11 de junho, às 19h
Onde: Cinemateca Paulo Amorim – Casa de Cultura Mario Quintana (Rua dos Andradas, 736 – Porto Alegre) – Entrada franca