EDUCAÇÃO

A expansão desenfreada do setor mercantilista de educação

Como as empresas de capital aberto conseguem obter altos lucros, se expandir e projetar altas taxas de crescimento, atuando por dentro dos governos e se apropriando do orçamento público da educação
Por Gilson Camargo / Publicado em 28 de dezembro de 2021

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Em setembro de 2020, a Uniasselvi, sob a sigla Vitru, estreou na Nasdaq. Um mês depois, suas ações tinham caído 15%

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Maior grupo de educação superior privada do país, com mais de mil polos de EaD em 700 municípios e uma “carteira” que ultrapassa 1 milhão de alunos, a holding mineira Yduqs anunciou em um comunicado aos acionistas, no começo de novembro, o resultado do terceiro trimestre: lucro líquido de 72,8 milhões. O grupo revelou que dispõe de R$ 2 bilhões em caixa para aquisições de ativos de outras instituições para incrementar o seu ensino virtual e presencial. “Tem uma fila de pessoas oferecendo negócios, já que o momento de dificuldade é grande. Há muita coisa boa aparecendo”, afirma Eduardo Parente, CEO da companhia. O alvo: instituições de ensino superior endividadas, em crise ou falidas de norte a sul do país. A empresa de participações que tem em seu portfólio marcas como a Estácio de Sá e a Ibmec viu o preço-alvo das suas ações na bolsa de valores se valorizar de R$ 22,84 para R$ 38,00 depois que o resultado do período chegou ao conhecimento dos especuladores.

Em um mercado que acirrou a disputa por captação de alunos, aquisições e fusões, e migração para o ambiente virtual durante a pandemia, a holding, que em 2019 alterou a marca Estácio para Yduqs com os objetivos de “dedicar recursos em negócios já existentes” e “desenvolver novos negócios” é um caso exemplar da expansão desenfreada das empresas mercantilistas de educação.

O cenário é altamente competitivo, regido pelas leis de mercado, e ao mesmo tempo, ameaça a sobrevivência até de grandes instituições tradicionais e comunitárias de ensino. Nesse mar aberto para as grandes companhias com ações em bolsa, a lógica mercantilista vem antes do ensino, pesquisa e extensão, da autonomia docente, dentre outras diretrizes que norteiam uma educação de qualidade.

A batalha por conquistar mais alunos – eles são precificados e identificados como “ticket médio” nos balanços patrimoniais e a quantidade de novas matrículas é determinante para a valorização dos ativos das companhias – e abocanhar fatias cada vez maiores e diversificadas do “mercado” educacional impõe uma série de baixas para a educação e suas finalidades: a qualidade, a formação, a remuneração, condições de trabalho e direitos também entram como variáveis a serem neutralizadas.

Estreia com prejuízo na Nasdaq

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Yduqs, maior grupo de educação superior privada do país, detém marcas como a Estácio e anunciou que tem R$ 2 bi para fusões e aquisições

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Para bancar sua sustentação financeira e compensar perdas, grupos se apropriam do orçamento público da educação

Uma forte característica dos grupos de educação de capital aberto é a capacidade de absorver prejuízos periódicos e mirar no resultado de longo prazo. No caso da Yduqs, o resultado do terceiro trimestre de 2021 representa uma queda de 35% no faturamento se comparado com o mesmo período de 2020, o que representa R$ 103 milhões a menos em caixa. A receita líquida do grupo em 2021, ainda sem o resultado do quatro trimestre, oscila em R$ 3,5 milhões – em 2020 superou os R$ 3,8 milhões. Em 2011, quando começou a colher os primeiros resultados da abertura de capital, o faturamento da holding educacional era de pouco mais de R$ 870 mil – ou seja, o resultado do grupo quadruplicou em uma década.

Outro caso curioso é o da Uniasselvi. Em setembro de 2020, a holding da instituição de ensino a distância, sob a nova sigla Vitru, anunciou a abertura de US$ 96 milhões na Nasdaq (em português, Cotação Automatizada da Associação Nacional de Vendedores de Títulos) – ou o pregão de ações do setor de tecnologia da Bolsa de Valores de Nova York que, no ano 2000 levou o mercado de internet à bancarrota depois do estouro da bolha das ponto.com.

Maior instituição de ensino superior de Santa Catarina, com 600 polos de EaD e dez unidades presenciais, a Uniasselvi oferta mais de 200 cursos de graduação e pós-graduação em todos os estados. Para o mercado de ações, no entanto, era uma completa desconhecida. Mas com a entrada na bolsa, as ações do grupo começaram a ser recomendadas com estardalhaço pelos bancos Itaú e Morgan Stanley. O Itaú chegou a projetar valorização acima de 30% nos papeis da Vitru. Só que entre o dia 18 de setembro, data da estreia na Nasdaq, e 13 de outubro, as ações da companhia caíram 15% no mercado americano, de US$ 16.00 pra US$ 13.61.

O mau resultado, porém, ficou diluído pelo caminho também no caso da empresa catarinense. No terceiro trimestre de 2021, a holding anunciou um crescimento de 20% e uma trajetória de aumento do lucro líquido projetada para os próximos anos.

A receita líquida até novembro (antes de juros, impostos, depreciações e amortizações) do EaD de graduação foi de R$ 126 milhões, enquanto a receita líquida consolidada aumentou 17%, para R$ 148 milhões.

Nos resultados anuais, depois de um prejuízo de R$ 66 milhões em 2019, a empresa faturou R$ 52 milhões em 2020, R$ 51 milhões em 2021 (resultado ainda sem o lucro do quarto trimestre, divulgado só em março do ano seguinte); e projeta R$ 111 milhões em 2022 e R$ 166 milhões em 2023. “Com um bom momento de lucros e um modelo de negócios consistente (comprovado pelos resultados do terceiro trimestre), acreditamos que a busca da Vitru por altas taxas de crescimento tem pequeno risco de execução, reiterando a nossa classificação de compra”, afirma a companhia no relatório elaborado pelo Banco BTG Pactual.

Para explicar como as megaempresas de educação, apesar de acumular perdas, conseguem obter altos lucros, se expandir e projetar altas taxas de crescimento, é necessário entender como essas companhias atuam por dentro dos governos e das políticas educacionais e se apropriam do orçamento público da educação no país.

Fonte: Allan Kenji Seki/ Ufsc

Fonte: Allan Kenji Seki/ Ufsc

Mercado aquecido pelo novo ensino médio

“A mercantilização é uma escolha produzida no âmbito do Estado, pelos capitais, e estabelece as condições sociais necessárias para a formação desses grandes oligopólios de ensino”

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Por dentro desses grupos, em seus conselhos de administração, estão grandes capitais como bancos e fundos de investimentos como Advent, JP Morgan, BlackRock, Capital Group, etc”, aponta o professor Allan Kenji

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“O lobby que esses setores conseguem impor às políticas educacionais é grande e tem encontrado, nos sucessivos governos brasileiros, bastante amparo. É uma expansão com efeitos bastantes deletérios sobre a educação e suas finalidades”, observa Lalo Watanabe Minto, doutor em Educação e professor da Faculdade de Educação da Unicamp.

De acordo com um estudo do professor da FGV, Oscar Malvesi, para a Federação dos Professores de São Paulo, em apenas quatro anos o faturamento das empresas Kroton, Ânima, Estácio e Ser Educacional, só para citar o topo da cadeia, quadruplicou, atingindo R$ 13,5 bilhões em 2015. Um crescimento alimentado por benefícios fiscais, como Fies e ProUni, fusões e aquisições, e achatamento de salários.

Autor do livro O capital financeiro no ensino superior brasileiro (1990-2018), resultado da sua tese de doutorado em Educação na Universidade Federal de Santa Catarina, o professor Allan Kenji Seki ampliou a análise, a pedido do Extra Classe, e elaborou um estudo sobre os resultados financeiros dos cinco maiores grupos educacionais do país de 2011 a 2021 – tabela acima.

Desconsiderando o resultado negativo do grupo Cogna, essas empresas movimentaram nada menos que R$ 333 bilhões somente de janeiro a novembro de 2021.

Para o professor da UFSC e pós-doutorando em Educação pela Unicamp, a mercantilização “é uma escolha produzida no âmbito do Estado, pelos capitais, de expandir, concentrar e centralizar capitais de ensino, o que estabelece as condições sociais necessárias para a formação desses grandes oligopólios de ensino. Por dentro desses grupos, em seus conselhos de administração, estão grandes capitais como bancos e fundos de investimentos como Advent, JP Morgan, BlackRock, Capital Group, etc”, aponta Kenji.

Educação e outros negócios

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Lemann, fortuna de 19 bilhões de dólares e lobby educacional

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A nova onda de expansão dessas companhias está relacionada à reforma do ensino médio imposta pelo governo federal para atender os interesses de empresários do setor privado de educação – que exercem um poderoso lobby sobre o MEC. Logo depois da reforma, a aquisição de escolas de educação básica por investidores bombou no país.

O exemplo mais notório é o do bilionário brasileiro Jorge Lemann. Dono da Eleva Educação, que está em processo de abertura de capital na B3 e tem 120 mil estudantes em 190 unidades, Lemann é um dos homens mais ricos do país, dono de uma fortuna de quase 19 bilhões de dólares, amealhada não só com negócios educacionais, mas com cervejaria e varejo: é um dos donos da AbinBev, lojas Americanas, Burguer King, Kraftz Heinz. Em fevereiro, o empresário comprou 51 escolas do grupo Cogna (ex-Kroton) por R$ 1,5 bilhão.

Lemann é um dos mantenedores da escola de negócios Insper e das fundações Estudar e Lemann. O diretor de marcas da Eleva, Rodrigo Villard, reforça o apetite expansionista do braço educacional do conglomerado, que tem como alvo prioritário a região Nordeste. Em setembro, a Eleva incorporou a ISO Colégio e Cursos na Paraíba.

O milionário brasileiro é um dos lobistas que desde o início do isolamento social em virtude da pandemia vêm articulando e pressionando pela massificação da educação a distância na rede pública.

O alvo são as matrículas da educação básica

Essa estratégia para assegurar o acesso dos alunos aos conteúdos diante do fechamento das escolas prevê que o MEC pagaria a conta do patrocínio de dados de internet adquiridos das empresas de telefonia móvel e as secretarias de educação fariam a relação com a comunidade escolar e uma plataforma digital colocaria à disposição os conteúdos básicos.

“Para o empresário, o resultado poderá ser a abertura de um mercado há muito ambicionado pelo capital, as mais de 80% de matriculas da educação básica que se encontram na rede pública de ensino, e a canalização do fundo público da educação para a reprodução capitalista”, aponta o professor e diretor do Sind-Ute/MG, Fábio Garrido, em um artigo de abril do ano passado no Brasil de Fato.

O que está em jogo é o orçamento público da educação. De acordo com o professor da Unicamp, a chegada dessas instituições de ensino, por meio dos grandes conglomerados, à Bolsa de Valores, é um processo que não está desvinculado da política educacional como um todo.

Crescimento com recursos públicos

Foto: Acervo Pessoal

Lalo Watanabe, da Unicamp: “Rentabilizar, de forma crescente, os capitais investidos nesses grupos passa a ser mais importante do que a qualidade do ensino e outras atividades que oferecem”

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“Os recursos estatais são transferidos para o privado, na forma de parcerias, convênios, terceirizações, compras diretas, bolsas, financiamentos, e passam a compor a rentabilidade desses grupos”

Por um lado, essa é uma contradição da própria política social feita num Estado capitalista, que sempre implica mobilizar recursos estatais de grande volume para realizar a oferta do ensino para milhões, pondera Lalo Watanabe. “São recursos estatais que são transferidos para o privado, na forma de parcerias, convênios, terceirizações, compras diretas, bolsas, financiamentos diversos, etc. e que passam a compor parcela essencial da rentabilidade desses grupos”, exemplifica.

O professor repara que, no plano geral da política de educação, uma das formas históricas de benefício ao setor privado sempre foi a compra de materiais didáticos. Hoje isso é apenas parte do processo, embora continue a ser importante. “O que o setor privado vende para a educação estatal envolve grandes pacotes, que pode incluir até a elaboração da própria política, como vimos ocorrer em grande medida na elaboração da BNCC”.

Watanabe diz que o setor privado não chegou ao ponto de se “financeirizar” por sua conta e risco. “O discurso da eficiência privada não resiste a um período letivo. A incorporação crescente da lógica e do interesse privado nas políticas educacionais foi decisivo para chegarmos onde estamos hoje”, contrapõe.

Além de se beneficiarem do dinheiro e das políticas públicas, os grupos mais competitivos adotam uma estratégia de expansão a qualquer custo, incorporando instituições quebradas ou em situação falimentar, uma lógica predatória que impõe, acima de tudo, a homogeneização da educação país afora. “Outra forma de ação característica desses grupos – novamente, com maior avanço inicial na educação superior – é a da aquisição de outras instituições menores. Isso conforma um processo de centralização do capital na educação”, explica Watanabe.

Sede de expansão

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Sala de aula do Ibmec

Foto: Ibmec/ Reprodução

Na educação superior, nos últimos 12 meses, nada menos que dez faculdades e universidades, invariavelmente em dificuldades financeiras, foram arrematadas por gigantes de capital aberto em vários estados.

A catarinense Vitru, dona da Uniasselvi, arrematou a UniCesumar, avaliada em R$ 3,2 bilhões. A líder do ranking, Cogna fez 15 aquisições na última década e também a maior transação envolvendo a compra de escolas de educação básica. Em maio deste ano, a holding mineira Ânima concluiu a compra dos ativos da Laureate, que incluem as universidades Anhembi Morumbi e FMU, em São Paulo, o IBMR, no Rio de Janeiro e, no Rio Grande do Sul, a UniRitter (campi zona Sul, Fapa e Iguatemi na capital e campus Canoas) e a Fadergs.

O grupo que incorporou a UniRitter faturou R$ 816,7 milhões no terceiro trimestre deste ano ante R$ 350,9 milhões do mesmo período em 2020, o que representa um aumento de 132,7%. A meta da companhia é uma receita líquida de R$ 3 bilhões por ano.

Quem perde com a lógica mercantilizada

“As famílias que compram esse ensino, acreditando na superioridade do privado em relação à escola pública, acabam por receber cada vez menos qualidade”

Quem paga o preço dessa lógica de expansão mercantilizada são os consumidores, que recebem um ensino de baixa qualidade, e os trabalhadores de educação. Os professores são impactados pelo processo de adensamento do uso de tecnologias, com robôs corrigindo provas, por exemplo; flexibilização dos regimes de trabalho, perda da autonomia, baixa remuneração e degradação das condições de trabalho, destaca o professor da Unicamp.

“No caso da educação básica, as famílias que compram esse ensino, de certa forma, acreditando na superioridade do privado em relação à escola pública, acabam por receber cada vez menos qualidade, pois o setor fica pressionado por atingir as suas metas de rentabilidade. Na educação superior privada, que não possui o mesmo prestígio que as escolas de educação básica, o estrago pode ser ainda maior, pois neste nível as práticas deletérias também são mais ‘liberadas’.

Noção distorcida de qualidade

De acordo com ele, a noção de qualidade que se tem no senso comum reproduz a lógica privada na educação brasileira. A desqualificação sistemática de tudo o que se pretende “público” opera um grande favor ao privado. “Na educação não é diferente: mesmo não sendo generalizável, ainda vemos muito forte a noção de que a escola básica privada é boa, ao passo que a pública/estatal seria ruim, de baixa qualidade, lugar de violência e de perspectivas rebaixadas”.

No caso do ensino superior, a superioridade das públicas/estatais é notória. Por isso, não se põe a ênfase na qualidade, mas sim na tentativa de desqualificar tais instituições como sendo lugar de baderna, balbúrdia e coisas do tipo. “As privadas, por sua vez, compensariam as suas fragilidades por serem mais “próximas ao mercado”, mais flexíveis e/ou acessíveis. Se quisermos pegar outro exemplo de como pode ser ruim esse preconceito para com o caráter público de certas políticas sociais, podemos olhar para o caso da saúde e tudo o que tem ocorrido com a pandemia”, aponta Lalo Watanabe.

Na marca do pênalti

“Descaracterizaram totalmente uma instituição que sempre foi uma referência em qualidade do ensino, impondo mudanças no conteúdo dos cursos sem qualquer participação dos professores”

Lecionar nessas instituições, muitas vezes não tem nada a ver com exercer a profissão docente devido à completa anulação da autonomia do professor em sala de aula. Nesse ambiente minado pela urgência do negócio e pela burocracia, a rotatividade de coordenadores de cursos e professores é grande e a desvalorização relatada pela categoria fica evidente no momento da rescisão de contrato. “Pedi demissão devido aos baixos salários e à falta de espaço para crescer na carreira”, desabafa uma professora que encarou sua primeira experiência docente em uma instituição mercantilista de Porto Alegre.

“A cada semestre tu sabias que haveria uma rodada de demissão, o que provocava muita insegurança e nos colocava na marca do pênalti. Um ambiente de trabalho deletério, com alta rotatividade de pessoal, principalmente os coordenadores de curso, pessoas despreparadas e sem conhecimento da instituição, cujo comprometimento não passa da relação contratual mais imediata”, exemplifica o professor e mestre em Direito Everton de Jesus, 60 anos, que lecionou por mais de 13 anos na UniRitter.

“Descaracterizaram totalmente uma instituição que sempre foi uma referência em qualidade do ensino, impondo mudanças no conteúdo dos cursos sem qualquer participação dos professores. No Direito, por exemplo, unificaram disciplinas de uma forma absurda e inaceitável”, ilustra Everton. O professor relata que sua saída da instituição foi inusitada. Ele estava em estabilidade pré-aposentadoria, um direito previsto na Convenção Coletiva de Trabalho, mas foi desligado da instituição em janeiro deste ano, depois de mais de um ano sob pressão para que assinasse um aviso prévio.

Baixo controle e fraudes

Há pouquíssimo controle público sobre o que se faz nas instituições, além do que elas desenvolveram formas de driblar os escassos instrumentos de avaliação existentes, podendo se valer de posições generosas nos rankings”, destaca o professor da Unicamp.

O que Watanabe afirma tem lastro na realidade recente. Em setembro de 2020, em meio ao processo de venda dos seus ativos para o grupo Ânima, em uma transação que movimentou R$ 4,4 bilhões, a gigante da educação superior Laureate Brasil foi alvo de uma ação civil pública do Ministério Público Federal (MPF) que pede ao MEC uma fiscalização rigorosa nas suas instituições.

De acordo com denúncias e documentos apresentados ao MPF por ex-professores, a Laureate teria forjado atas de reuniões para obter o reconhecimento de cursos da UniRitter, obrigado docentes a lecionar em cursos fora de sua área de formação e utilizado robôs para corrigir provas, tudo isso sem o o conhecimento dos estudantes.

Nova fronteira da educação mercantilizada

O Rio Grande do Sul, que já havia atraído investimentos da Anhanguera, Laureate, Ânima e outras, entrou no radar de expansão de novos concorrentes interessados em aquisições e fusões, atraídos pelo potencial de expansão do ensino superior em um cenário de instituições à beira da insolvência por dívidas.

O já disputado mercado gaúcho nunca foi tão cobiçado por novos grupos como na pós-reforma do ensino médio e por conta da expansão da modalidade remota na pandemia. Com 11,4 milhões de habitantes, o estado tem a menor taxa de escolaridade líquida (que mede o percentual de jovens de 18 a 24 anos matriculados no ensino superior em relação à população da mesma faixa etária) da região Sul: 22,6%. Ainda de acordo com dados do Mapa do Ensino Superior 2021, do Instituto Semesp, entidade que representa mantenedoras desse segmento, a oferta cresceu 20,5%. O estado possui 123 instituições de ensino presencial e 94 de EaD em nível universitário.

Em outubro, a Faculdade Meridional (Imed), pequeno grupo educacional do interior gaúcho que já possui campi em Porto Alegre e Passo Fundo, anunciou a aquisição Faculdade América Latina (FAL) de Ijuí e um projeto ousado de expansão para outras seis cidades gaúchas: Erechim, Santa Cruz do Sul, Caxias do Sul, Novo Hamburgo, Pelotas e Santa Maria.

Entre os grandes grupos interessados nesse mercado potencial está a mineira Afya, voltada para cursos da área médica, que deve anunciar a eventual aquisição de ativos na região Sul. O grupo estaria entre os potenciais compradores dos ativos da Aelbra, mantenedora da Ulbra. Com um passivo superior a R$ 9 bilhões, a Aelbra teve recentemente aprovado um plano de recuperação judicial que prevê a venda da instituição de educação superior no Rio Grande do Sul.

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