Fichas inéditas de Paulo Freire são lançadas em livro

Obra organizada por Nita Freire reúne anotações pessoais do Patrono da Educação Brasileira e revela o percurso intelectual do pensador pernambucano responsável pela Pedagogia do Oprimido
Fichas inéditas de Paulo Freire são lançadas em livro

Professor Alípio Casali e Ana Maria Araújo Freire, a Nita, biógrafa e viúva de Paulo Freire

Foto: Marcelo Menna Barreto

A noite de quinta-feira, 12 de março, foi marcada pelo encontro de educadores, estudiosos e admiradores da obra de Paulo Freire. Foi o lançamento em São Paulo de Meus registros de educador (Editora Paz & Terra), obra que traz a público fichas de estudo escritas pelo próprio patrono da educação brasileira, considerado um dos principais pensadores da educação do mundo e também um dos pedagogos mais influentes do século 20.

Com organização e notas de Ana Maria Araújo Freire, a Nita, biógrafa e viúva do educador, o livro reúne material nunca antes publicado e é apresentado pela editora como o último inédito do Patrono da Educação Brasileira.

Presentes ao lançamento, o professor Alípio Casali, o educador e filósofo Mario Sergio Cortella e o ex-reitor da PUC-SP, Antonio Carlos Caruso Ronca. O encontro incluiu bate-papo, depoimentos emocionados e sessão de autógrafos com a organizadora.

O artesanato do pensamento freireano

Para Casali, a publicação permite ao leitor uma aproximação rara com o processo criativo de Paulo Freire. “É como se pudéssemos observar, pelo ombro, o trabalho desse autor fazendo anotações de uma maneira tão íntima, tão próxima, tão pessoal”, afirmou. O professor destacou as impressões de Freire sobre pessoas com quem conversava, entrevistava e as referências que alimentavam sua produção.

Casali situou a obra no mesmo patamar de outros legados intelectuais organizados postumamente, evocando nomes como Lourenço Filho, Anísio Teixeira, Fernando de Azevedo e Álvaro Vieira Pinto, no Brasil, e Walter Benjamin e Antonio Gramsci, no plano internacional. Ele foi além e fez uma comparação afetiva ao papel de Nita: “Eu me lembrei de Jenny von Westphalen, companheira de Karl Marx — talvez a única pessoa capaz de decifrar, organizar e trazer a público a obra desse autor extraordinário”. Para Casali, assim como Jenny “foi fundamental para a obra marxiana”, Nita é quem torna possível o acesso ao processo de elaboração do pensamento freireano.

“Não quero desvirtuá-lo em nenhum momento”

Emocionada, Nita Freire falou sobre a responsabilidade e o cuidado que guiaram o trabalho de organização da obra ao longo de aproximadamente três anos. “Esse autor era o meu marido, que eu tanto amava. Não quero desvirtuá-lo em nenhum momento”, declarou.

A educadora explicou que as fichas revelam o que chamou de “caminho gnosiológico” de Paulo Freire: o percurso de leituras e diálogos com pedagogos, sociólogos, psicólogos e psiquiatras que foi enriquecendo sua capacidade de perceber o outro e construir uma teoria do conhecimento singular. “Paulo foi acrescentando suas leituras, nunca copiando, sempre reinterpretando à luz da sua própria experiência”, disse Nita.

Nita também antecipou que, apesar de a editora ter classificado o volume como o último inédito de Paulo Freire, ela já identificou outros materiais — conferências e textos — que podem vir a público. “Acho que ainda tenho o direito de publicar os outros”, considera. Na hora, ouviu do público: “Nós temos o direito de conhecer” e abriu um sorriso.

Memória, presente e futuro

Mario Sergio Cortella aproveitou a ocasião para fazer uma homenagem a Nita Freire, que nasceu no dia 13 de novembro, mesma data de nascimento de Santo Agostinho de Hipona, em 354. O

Foto: Paz e Terra/Divulgação

filósofo recorreu ao pensamento agostiniano sobre o tempo para refletir sobre o significado do livro: “O presente se apresenta de três modos — o presente do passado, que é a memória; o presente do presente, que é o momento; e o presente do futuro, que é a expectativa. Esse livro traz e apresenta o presente de Paulo Freire em toda essa dimensão”.

Cortella também compartilhou uma lembrança pessoal: foi o último orientando do professor Paulo Freire. “Ele fez comigo algo que não deveria ter feito: faleceu uma semana antes da minha defesa de doutorado”, brincou, relembrando que Nita assumiu o lugar do marido na banca. Ele destacou ainda a postura de Nita como guardiã e divulgadora do legado freireano: “Ela tem uma grande vantagem — não tranca as coisas do professor Paulo, ao contrário, ao encontrá-las quer colocá-las no mundo”.

O ex-reitor da PUCSP, Antonio Carlos Caruso Ronca, relembrou a relação especial entre Paulo Freire e a universidade. Segundo ele, quando Freire manifestou o desejo de reduzir sua carga de orientações por conta do peso que representavam, Ronca propôs um acordo: “Olha, eu topo que você diminua seu contrato, mas não o seu vencimento. Em troca, em todo lugar que você for, você vai dizer que é professor da PUC de São Paulo”. Paulo Freire, segundo Ronca, cumpriu religiosamente o combinado.

Ronca encerrou seu depoimento convocando os presentes à resistência: “Para que Paulo continue vivo entre nós e continue nos estimulando a não perder a esperança. Apesar das guerras, apesar do Trump, apesar de tudo que acontece nesse mundo — vamos continuar a esperançar”.

Sobre a obra

Meus registros de educador reúne fichas de estudo escritas por Paulo Freire durante os anos de 1964 a 1968, período em que ele estava no exílio. Com notas e organização de Ana Maria Araújo Freire, a obra apresenta como as anotações influenciaram a construção do pensamento e dos livros do educador. Todo o catálogo de Paulo Freire está publicado pela Editora Paz & Terra.

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