Notas baixas no Enade 2025 refletem mercantilização da formação docente

Resultados da Prova Nacional Docente escancaram abismo entre formação presencial e EAD nas licenciaturas e reacendem críticas à expansão de modelos massificados de ensino

Notas baixas no Enade 2025 refletem mercantilização da formação docente

Foto: Wilson Dias / Agencia Brasil

Os resultados da primeira edição reformulada da avaliação da formação docente no país — o Enade das Licenciaturas 2025 — recolocaram no centro do debate educacional brasileiro uma crítica antiga de pesquisadores da área: a expansão acelerada e massificada do ensino a distância (EAD) na formação de professores.

Enquanto três em cada quatro concluintes de cursos presenciais demonstram domínio satisfatório do conhecimento, a realidade se inverte no ambiente digital.

Educadores são categóricos: em muitas Instituições de Ensino Superior (IES) com fins lucrativos, a licenciatura tem sido transformada em um mero produto de mercado, esvaziando a dimensão crítica e humanista da docência.

Os números divulgados pelo Ministério da Educação (MEC) e pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), no último dia 20 de maio, revelam um cenário considerado alarmante. Mais da metade (53%) dos concluintes de cursos de licenciatura e pedagogia em EAD ficaram abaixo do nível básico de aprendizagem na Prova Nacional Docente (PND), com nota inferior a 3 numa escala de 1 a 5. Nos cursos presenciais, esse percentual cai para 26%.

O contraste aparece também no índice de proficiência considerado satisfatório pelo MEC. Enquanto 73,9% dos concluintes de cursos presenciais atingiram o patamar esperado, apenas 46,9% dos estudantes formados no EAD chegaram ao mesmo nível.

Os dados do Enade reforçaram ainda outro problema estrutural: determinadas áreas apresentam desempenho especialmente crítico. Música liderou o percentual de concluintes abaixo do nível básico, com 61%, seguida por Matemática (56%), Letras Português-Inglês (52%) e Letras-Inglês (51%). Pedagogia registrou 47%.

A porta de entrada da docência e o endurecimento do MEC

O impacto sobre a educação básica preocupa porque o ensino a distância tornou-se a principal porta de entrada da profissão docente no Brasil. Cerca de 60% dos formandos avaliados vieram da modalidade remota, concentrada majoritariamente em IES com fins lucrativos.

Nas faculdades privadas, os resultados foram ainda mais críticos: 53% dos concluintes ficaram abaixo do nível básico. O levantamento do Inep mostra também que 60,5% de todos os cursos EAD de formação de professores receberam conceitos 1 ou 2 — os mais baixos da avaliação.

Diante do cenário, o governo Lula tem endurecido as regras do setor. O Decreto nº 12.456/2025, chamado de Novo Marco Regulatório do EAD, proibiu a abertura de novas turmas de licenciaturas 100% online. As instituições terão até maio de 2027 para migrar os cursos para modelos presenciais ou semipresenciais.

O professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Mateus Saraiva, avalia positivamente as mudanças regulatórias implementadas pelo MEC. Para ele, doutor em Educação e pesquisador da área de políticas e gestão da educação, a formação docente exige convivência acadêmica, estágios supervisionados e espaços de reflexão coletiva.

“Não dá para fazer uma formação de professor que seja 100% EAD”, sustenta.

O problema não é o EAD

O problema revelado pelos resultados do Enade das Licenciaturas, na visão de Saraiva, não está propriamente no ensino a distância, mas na forma como ele foi incorporado pela lógica de mercado.

Segundo ele, a expansão acelerada das licenciaturas EAD nas instituições privadas com fins lucrativos produziu um modelo de formação “aligeirada”, baseado na redução de custos, na contratação de docentes menos qualificados e na substituição do acompanhamento pedagógico por plataformas padronizadas.

“A educação boa demanda recurso, infraestrutura e quadro de pessoal. A EAD não exige menos das instituições; exige igual ou mais”, afirma.

O pesquisador observa que a precarização atinge principalmente estudantes das camadas populares, muitos deles os primeiros da família a ingressar no ensino superior e que veem na docência uma possibilidade de mobilidade social.

“São pessoas que fazem muito sacrifício para pagar a mensalidade e acabam recebendo uma formação precária”, critica.

Saraiva ecoa a visão de outros importantes educadores do país que vêm se debruçando sobre a proliferação do EAD na formação docente.

Reforma empresarial e teoria do capital humano

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Luiz Carlos de Freitas é um dos principais críticos da chamada “reforma empresarial da educação”.

Para Freitas, os resultados refletem um modelo estruturado sob lógica empresarial. O pesquisador argumenta que a expansão desenfreada do EAD nas licenciaturas integra um processo de “barateamento” da formação docente para atender aos interesses de grandes conglomerados privados.

Segundo ele, o modelo reduz a formação do professor a um treinamento técnico baseado em plataformas digitais, apostilas e atividades padronizadas, esvaziando o ambiente universitário como espaço de debate intelectual, convivência acadêmica e reflexão crítica.

Em suas análises sobre o tema, Freitas alerta para o risco de transformar professores em meros “executores de tarefas”, e não em intelectuais da educação. Para o pesquisador, o que está em curso é um processo de “desqualificação do magistério”.

Gaudêncio Frigotto é outro importante crítico da aplicação da Teoria do Capital Humano na educação brasileira — a lógica de que a educação serve primordialmente para formar força de trabalho adaptável às demandas do mercado.

Na ótica do professor vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas e Formação Humana da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), as grandes corporações educacionais transformaram o direito subjetivo à educação e o diploma de professor em uma mercadoria de altíssima escala e baixo custo de produção.

Assim, o EAD nas licenciaturas funciona como uma engrenagem em que estudantes pagam por um serviço precarizado, acreditando estarem se incluindo socialmente, enquanto grandes fundos de investimento lucram com a ausência de infraestrutura física efetiva, como laboratórios, campi e bibliotecas.

Transferência de responsabilidades

Crítica semelhante aparece nos estudos da professora Olinda Evangelista, pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Especialista em políticas de formação docente, ela sustenta que o modelo de expansão do EAD nas licenciaturas produziu uma formação “aligeirada e barateada”.

Segundo suas pesquisas, a lógica predominante transfere quase integralmente ao estudante a responsabilidade pela própria aprendizagem, reduzindo o papel institucional da universidade na oferta de atividades de pesquisa, extensão e formação coletiva.

Na avaliação de Olinda, isso enfraquece justamente os elementos considerados centrais na formação docente: o aprofundamento teórico, a reflexão pedagógica e a experiência universitária compartilhada.

O professor João dos Reis Silva Júnior, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), também associa o crescimento das licenciaturas a distância à financeirização da educação superior brasileira.

Em seus estudos sobre capitalismo acadêmico e mercantilização do ensino, ele analisa como fundos de investimento passaram a controlar grandes conglomerados educacionais e reorganizaram os cursos sob critérios de redução de custos e ganho de escala.

Nesse processo, afirma o pesquisador, o trabalho do professor universitário tende a ser substituído por tutores, plataformas automatizadas e trilhas digitais padronizadas, precarizando as relações de trabalho e reduzindo a densidade acadêmica da formação oferecida aos futuros professores da educação básica.

Qualidade sem democratização

Já a pesquisadora Marília Morosini, coordenadora do Centro de Estudos em Educação Superior (CEES) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), reconhece que o EAD teve papel importante na ampliação geográfica do acesso ao ensino superior, especialmente para estudantes trabalhadores e moradores do interior do país.

Ela alerta, no entanto, que a expansão quantitativa não significou necessariamente democratização da qualidade.

Suas pesquisas apontam que estudantes das periferias e regiões mais distantes acabam recebendo formações mais pobres em recursos acadêmicos, muitas vezes sem acesso consistente a bibliotecas, iniciação científica, orientação docente próxima e atividades presenciais de formação.

Para Marília, isso aprofunda desigualdades justamente entre os profissionais que irão atuar nas escolas públicas brasileiras.

Mantenedoras questionam metodologia

Em reação aos resultados, a Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES) questionou a metodologia utilizada pelo Inep.

A entidade afirma que a combinação entre Teoria de Resposta ao Item (TRI) e método Angoff pode gerar distorções na interpretação dos conceitos e sustenta que cursos com bom desempenho acadêmico poderiam acabar classificados como insatisfatórios pela escala adotada.

Mesmo com as críticas das mantenedoras privadas, o MEC já indicou que os resultados servirão de base para novas políticas de regulação e fiscalização.

A partir de 2027, todos os cursos de licenciatura passarão por avaliações presenciais in loco, incluindo análise de bibliotecas, laboratórios, infraestrutura física e funcionamento efetivo dos polos de apoio presencial.

Comentários