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Alvos preferenciais da polícia ainda são jovens e crianças de pele negra
Seis anos após o Extra Classe mostrar que a polícia “mata por engano, mas não…

Em março, a Agência Lupa denunciou que pelo menos 84 anúncios com promessas de materiais pornográficos envolvendo crianças e adolescentes foram impulsionados no sistema de publicidade paga da Meta
Foto: Magnific
O Brasil registrou, em média, 15 estupros coletivos por dia entre 2022 e 2025, de acordo com dados do Ministério da Saúde, em levantamento feito a pedido da agência de notícias Deutsche Welle Brasil. Ao todo, foram registrados 22,8 mil casos. A maioria das vítimas é composta de meninas e adolescentes, seguidas por mulheres adultas. Em abril deste ano, dois episódios de estupros coletivos chocaram a população e ambos compartilharam de um mesmo desfecho de revitimização: além da violência vivida, o crime foi filmado, distribuído ou comercializado nas redes sociais.
No Rio de Janeiro, uma menina de 12 anos foi atraída pelo namorado para o local onde foi abusada por ele e outros sete jovens de 12 a 16 anos. Os rapazes a filmaram enquanto proferiam xingamentos e humilhações, e depois comercializaram os vídeos por R$ 5. Em São Paulo, dois meninos de 7 e 10 anos foram abusados por cinco adolescentes e um adulto. A irmã de uma das vítimas se deparou com cenas do crime nas redes sociais. Um dos autores do abuso afirmou que o estupro foi cometido “por brincadeira”.
A vulnerabilidade das infâncias e juventudes frente à violência sexual é um problema persistente no país, que tem ganhado novos contornos no ambiente digital. A produção de material pornográfico de abuso e sua distribuição levantam questionamentos sobre o papel das indústrias da tecnologia, do Estado e das famílias e redes de proteção à infância para coibir o crime e da relação entre a violência sexual, o consumo de pornografia e a crise das masculinidades.
Se, no passado, a pornografia ficava restrita aos cinemas de rua e videolocadoras, hoje se estabeleceu com sucesso na internet e se consolidou como indústria multibilionária, praticamente onipresente no ambiente digital. Levantamento do Pornhub, uma das maiores plataformas digitais do conteúdo do planeta, apresenta o Brasil como o quarto maior consumidor de pornô no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, do México e das Filipinas.
No artigo A pornografia e os impactos na saúde mental, os autores Jhonathan dos Santos Gomes e Dannis Magalhães reforçam que a literatura científica relaciona o consumo frequente de pornografia violenta ou coercitiva e a prática de agressão sexual por indivíduos que apresentem vulnerabilidades psicológicas preexistentes. O tipo de conteúdo auxilia a uma maior aceitação de mitos sobre o estupro e atitudes permissivas em relação à violência sexual.
A psiquiatra Anne Caroline Dias, do Ambulatório de Impulso Sexual Excessivo e Prevenção de Desfechos Negativos Associados (Aisep) – serviço especializado do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP (IPq-HC-FMUSP) –, explica que o consumo de pornografia atua de forma similar a drogas, como cocaína e álcool, na ativação do sistema límbico cerebral.
“Tem uma ativação do sistema límbico, liberação de dopamina, que é o neurotransmissor que vai estimular o prazer. É muito parecido, nesse sentido, com o uso de uma substância. Como tem essa liberação de dopamina, acaba-se ficando viciado, por assim dizer, na liberação da própria dopamina, o que leva a querer cada vez mais”, contextualiza a psiquiatra.
É a intensa liberação de dopamina que gera a chamada dessensibilização neurológica. A dessensibilização é uma resposta do cérebro à exposição repetida de estímulos, como a alimentação, o prazer sexual e as drogas. No caso da pornografia, o cérebro se acostuma a estímulos sexuais intensos, provocando uma redução da resposta de prazer a estímulos físicos convencionais, e levando os usuários à procura de materiais pornográficos cada vez mais intensos, extremos ou violentos para receber a mesma carga de dopamina e sentir prazer.
A pornografia ainda não é considerada um vício pela Organização Mundial da Saúde (OMS). O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), guia criado pela Associação Americana de Psiquiatria para padronizar e classificar os transtornos de ordem mental, utiliza o termo Uso Problemático de Pornografia (UPP), na sua 5ª edição. Mas a classificação pode ser alterada nas próximas edições, contextualiza Anne Caroline.
“A proximidade da fisiopatologia sugere isso. Inclusive no último Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), já teve uma aproximação do capítulo da pornografia, da compulsão sexual, com os transtornos de uso de substâncias.”
A pornografia é antiga na história humana, com esculturas, pinturas e gravuras de corpos e atos sexuais. É a facilitação do acesso a conteúdos pornográficos diversos e, principalmente, como se dá esse acesso e por quem que chama a atenção de especialistas.
“Talvez o ponto mais grave que me chama atenção é que, quando tem um filme de tiro, morte, todo mundo sabe que é filme. E quando é um filme de sexo, a gente acha que é vida real, que as pessoas realmente desempenham daquela forma ou que aquilo é um desempenho”, compara o psicólogo especialista em disfunções sexuais masculinas Diego Villas-Bôas.
O alerta é para o que ele denomina de um novo padrão de comportamento durante o ato sexual, reforçado pela indústria pornográfica, que é baseado na agressividade e na dominação de gênero, por exemplo, tida por virilidade e masculinidade.
“Um ato sexual mais carinhoso, mais devagar seria um ato sexual errado. Então, quanto mais vigoroso, mais forte, mais violento, vai ser entendido como uma expressão viril. E aqui o viril vai ser visto muito como força, com desejo e com violência. Ele seria mais desejável. E aí a pergunta é: desejável para quem?”, questiona.
É preocupante quando a pornografia cumpre o papel de instrumento desenvolvedor da sexualidade.
“Se eu estou tirando o filme sexual como um instrumento do meu aprendizado, da minha resposta sexual, isso aí já é extremamente perigoso. Porque quando tu assistes sem ter uma ideia de que aquilo ali é um filme, já é uma assistência muito equivocada. Então, eu posso achar que aquilo ali é um modelo e, sendo assim, eu vou tentar segui-lo, tentar reproduzi-lo”, destaca Villas-Bôas.

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Em uma escola privada de São Paulo, em março deste ano, meninos do 9º ano do ensino fundamental teriam preparado uma lista de “meninas estupráveis” da instituição. Os meninos, entre 13 e 15 anos, foram suspensos pela direção da escola, que considerou o conteúdo “ofensivo” à comunidade escolar e “em especial, às estudantes”. A banalização do estupro surpreendeu a comunidade e amedrontou as meninas.
Jovens estão particularmente vulneráveis aos impactos negativos da pornografia, dado que estão em uma fase crucial de desenvolvimento psicossexual. A adolescência é a fase em que o indivíduo forma o seu comportamento vindouro, deslocando a visão que a família ou cuidadores principais tinham dele. O objetivo na adolescência é expressar o eu. E a exposição precoce ao pornô atua no sentido de moldar suas expectativas sexuais.
“Vai variar muito de uma criança para outra. A gente não pode deixar de lado a personalidade da criança, mas ser apresentada tão cedo a um conteúdo sexual pode causar um choque na criança. E aí ela pode, sim, tanto ficar hipersexualizada no sentido de naturalizar isso, achar que é normal e começar a ter uma sexualidade muito precoce. E, muitas vezes, até vir a ser no futuro um agressor sexual, quanto pode ser o contrário, ter o comportamento mais evitativo, ver como algo negativo e se fechar para o sexo, ter dificuldade em ter relações sexuais”, diz Anne Caroline.
É enorme o desafio para as escolas na prevenção das violências. Ataques promovidos por grupos conservadores contra a liberdade de cátedra, o pensamento crítico e a “educação sexual”, terminologia que adquiriu significado negativo para famílias e pais brasileiros, enfraquecem o papel das escolas na devida orientação aos jovens, uma vez que a sexualidade é inerente ao ser.
No cenário de exposição precoce, o meio-termo entre a hipersexualização e o comportamento evitativo será o jovem que recebe orientação nos ambientes familiar e escolar sobre educação, saúde e proteção de seus corpos e de outros.
“É muito importante que realmente se entenda que a sexualidade tem que ser um eixo transversal na educação, pra que se possa falar sobre questões de gênero, sexualidade e práticas. Inclusive, quando dizer sim para a sua vida sexual, quando dizer não, e qual o direito que essas mulheres, que esses homens têm em relação às outras pessoas: em relação a outros corpos que não o seu”, explica Villas-Bôas.
O caminho para as escolas passa por empregar de forma sistemática conteúdos sobre prevenção de violência contra mulheres nos currículos escolares, realização de debates e facilitadores de espaços de escuta sobre as masculinidades, violências e saúde mental.
Foto: MagnificEm março, a Agência Lupa denunciou que pelo menos 84 anúncios com promessas de materiais pornográficos envolvendo crianças e adolescentes foram impulsionados no sistema de publicidade paga da Meta, empresa dona do Facebook, Instagram e Threads, apenas entre os dias 5 e 22 de janeiro de 2026. A big tech lucrou com a veiculação do material.
As peças utilizavam imagens de crianças e adolescentes e continham links que redirecionavam para grupos no aplicativo Telegram, onde se prometia a entrega de pornografia envolvendo menores de 18 anos.
Em 2025, a adultização foi tema nas redes sociais. O termo abrange não só a exposição precoce de menores a conteúdos inapropriados, mas também a exploração dos jovens na produção dos materiais. Em agosto de 2025, o influenciador Felca produziu robusta denúncia de perfis que promoviam a adultização de menores em conteúdos que geram lucros aos produtores e influenciam outros menores.
A questão chegou ao Congresso Nacional e, em setembro, o presidente Lula (PT) sancionou a Lei 15.211/2025, o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital), que proíbe a monetização ou impulsionamento de conteúdos que retratem menores de forma sexualizada.
Com a lei, o país elevou o rigor na proteção de menores frente à atuação das big techs, determinando que empresas de tecnologia adotem mecanismos mais eficazes para verificação de idade e medidas para evitar a exposição de crianças a conteúdos ilegais ou danosos.
A produção, divulgação, armazenamento ou compartilhamento de conteúdo de conotação sexual gerado por inteligência artificial (IA), envolvendo crianças e jovens, são equiparados à pornografia infantil. Para o psicólogo Villas-Bôas, o problema para as juventudes e para o desenvolvimento de uma sexualidade saudável deverá se aprofundar com a pornografia gerada através de IA, cada vez mais realista e responsiva a qualquer pedido sexual. “Esse adolescente vai estar aprendendo sexualidade com quem?”, indaga Villas-Bôas.
“Totalmente modelada para fazer tudo que tu queres, sem ter crivo nenhum. Isso, para viciar adolescente, vai ser um negócio absurdo”, reflete o psicólogo. “Dizendo tudo que eu quero ouvir para qualquer comportamento, atividade sexual. Tu mesmo crias o modelo e vai ser responsável por toda a culpa de que aquele teu modelo faça coisas que não são tão saudáveis, vamos dizer assim.”
A masculinidade pode ser entendida como uma construção social de um tempo. No atual cenário, as redes foram tomadas por movimentos como o red pill – grupos que pretendem resgatar o que significaria ser homem, em que reforçam comportamentos misóginos e de valores associados ao que defendem ser a masculinidade: negar emoções, acumular bens materiais, cultivar uma aparência física padronizada e exercer o domínio sobre as mulheres e o núcleo familiar.
Eles são a maioria das vítimas de mortes violentas, dos casos de suicídio, dos encarcerados no sistema prisional e dos autores de crimes contra mulheres e crianças.
Se, por um lado, o neoliberalismo oferece mais trabalhos precarizados, redução do poder de compra e de ascender socialmente, por outro, o compartilhamento do trabalho de cuidado e doméstico, exercidos majoritariamente pelas mulheres, engatinha para envolver os homens na divisão das responsabilidades. Eles, portanto, sentem-se desvalorizados na vida social e econômica e culpam as mulheres por ocuparem outros espaços dos que acreditam ter sido destinados a elas: cuidar sem remuneração para isso, e da maior autonomia financeira que elas têm para se oporem à submissão de gênero.
O movimento red pill oferece uma resposta ao que acreditam ser a “desvalorização do masculino”: prover, liderar, subjugar. Se associado ao consumo intenso de material pornográfico que perpetua discursos violentos, fecha-se o ciclo de naturalização dos abusos como forma de prevalecer o masculino sobre o feminino.
“Entendo que se você já tinha isso enquanto um pensamento, um desejo, ao assistir esse tipo de pornografia, falando com outros pares que alimentam essa ação como uma coisa possível, sim, essas pessoas vão se sentir muito mais motivadas” a cometer algum abuso, explica o psicólogo Villas-Bôas.
“Acaba-se naturalizando coisas como ‘ela vai gostar’, ‘elas falam que não querem, mas elas gostam’, ‘elas são isso, ou aquilo’. Dependendo do grupo em que você está inserido e o que você assiste, isso pode sim fomentar que você tenha esse tipo de atitude.”
O Ambulatório de Impulso Sexual Excessivo e Prevenção de desfechos negativos associados (Aisep), em São Paulo, recebe não só vítimas de violência sexual, atendidas pela psiquiatra Anne Caroline, mas também indivíduos que apresentam comportamentos sexuais compulsivos – inclusive com desejo de manter relações sexuais com crianças e adolescentes. Não há perfil estabelecido, mas são majoritariamente homens, de todas as idades e estado civil. Em sofrimento, eles procuram ajuda para não cometerem o ato, conta a médica.
“Eles chegam numa culpa muito grande, num desejo de cessar esse tipo de pensamento. Muitos deles chegam a pedir medicação no sentido de cessar esse tipo de desejo.”
Já as mulheres, geralmente, chegam ao Aisep para tratar o transtorno de estresse pós-traumático que desenvolvem após serem vitimadas. As que sofreram violência sexual ainda muito jovens podem vir a desenvolver transtorno de personalidade borderline, o qual apresenta padrão de frequente instabilidade de humor, impulsividade e problemas de autoimagem.
Os tratamentos no Aisep envolvem psicoterapia e acompanhamento psiquiátrico. A ferramenta da terapia em grupo tem obtido resultados muito positivos para as vítimas de violência sexual através do compartilhamento de experiências, conta Anne Caroline.
Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025, o Brasil registrou 87.545 casos de estupro e estupro de vulnerável em 2024.
Desses, 67.204 – ou seja, 76,8% – foram classificados como estupro de vulnerável, que implica em conjunção carnal ou outro ato libidinoso com menores de 14 anos, com quem possui enfermidade ou deficiência mental e não tem discernimento para a prática ou que, por qualquer outra causa, não pode oferecer resistência.