Tarifaço dos EUA entra em vigor

Cerca de 3 mil produtos brasileiros exportados aos Estados Unidos estão sujeitos à tarifa adicional de 25%

Foto: Alan Santos/PR

Começa a valer nesta quarta-feira, 22 de julho, a tarifa adicional imposta pelos Estados Unidos sobre cerca de 3 mil produtos brasileiros exportados ao país. Etanol, açúcar, calçados, tabaco, madeira, pneus, máquinas industriais e alguns itens de alumínio estão na lista de materiais sujeitos ao tarifaço.

O governo dos Estados Unidos adotou a medida após concluir em investigação que conduziu que o Brasil adota práticas que “oneram ou restringem” o comércio com o país, citando exemplos como o sistema de pagamentos PIX e a regulação de plataformas digitais, as big techs.

A acusação é que o Banco Central do Brasil (BC) favorece o sistema de pagamentos nacional em detrimento de empresas estadunidenses que atuam no setor, como empresas de cartões de crédito, como Visa e Mastercard.

O governo brasileiro contesta as justificativas, acusa os EUA de tentativa de interferência em temas internos e motivação política para tarifar os produtos.

Da lista de produtos tarifados pelo governo estadunidense foram poupados itens como petróleo bruto, café em grão, carne bovina, aeronaves, sucos de laranja, ferro-gusa, ferro-nióbio e celulose. Os insumos são considerados essenciais para a indústria e abastecimento interno dos Estados Unidos.

O Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) divulgou a versão final da medida no dia 16 de julho e excluiu 2.100 produtos da sobretaxa. A medida pode ser revista ou suspensa pelos EUA caso o Brasil elimine as práticas consideradas incompatíveis.

Negociações

O Brasil pode utilizar a via diplomática para seguir com as negociações com os Estados Unidos tendo em vista a derrubada da tarifa adicional ou fazer uso da Lei de Reciprocidade Econômica, sancionada pelo presidente Lula (PT) em 2025, para pressionar o governo dos EUA. A Lei de Reciprocidade Econômica permite que o governo brasileiro adote medidas de retaliação contra países ou blocos econômicos que aplique barreiras comerciais, legais ou políticas ao Brasil.

Visando reduzir os impactos das medidas aos produtores nacionais, o governo criou, via Medida Provisória (MP), o Plano Brasil Soberano para oferecer linhas de crédito e outras formas de apoio a empresas afetadas por crises externas, em 2025. Segundo a Presidência da República, o plano está estruturado em três eixos: fortalecimento do setor produtivo, proteção aos trabalhadores e diplomacia comercial e multilateralismo. Entre as principais medidas, estão linhas de crédito que somam R$ 30 bilhões do Fundo Garantidor de Exportações, a serem utilizados para financiar exportações e conceder empréstimos a taxas reduzidas.

Compromisso com os empregos

Para o coordenador do Fórum das Centrais Sindicais, Clemente Ganz Lúcio o Brasil deve insistir em todos os caminhos possíveis: negociação diplomática, continuidade e ampliação da estratégia que busca abrir novos mercados para os produtos brasileiros, fortalecimento do mercado interno e auxílio para as empresas que apresentem impactos consideráveis a partir das sobretaxas norte-americanas.

“Auxílio para as empresas que tenham impacto mais restritivo em suas atividades, como as que não conseguem rapidamente um novo mercado, dado que se trata de um nicho de produto específico para os EUA. Por exemplo, há madereiras no Paraná que exportam madeira específica para o tipo de casa que é produzida lá. Então você não consegue fazer uma mudança rápida de estratégia para esse negócio. Mas todas as medidas precisam estar vinculadas a proteção dos empregos e proteção dos trabalhadores brasileiros”.

Impactos do tarifaço no RS

A Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados) prevê que as exportações totais de calçados devem cair 7,1%, o dobro do previsto antes do anúncio da medida. Os Estados Unidos são o principal destino do calçado brasileiro no exterior.

“A aplicação da tarifa adicional reduz significativamente a competitividade do calçado brasileiro nos Estados Unidos e inviabiliza muitas operações que vinham sendo retomadas desde o fim da tarifa adicional de 40%, em fevereiro deste ano. Trata-se de uma medida que penaliza não apenas os exportadores brasileiros, mas também importadores, marcas, varejistas e consumidores norte-americanos, dada a interdependência produtiva e comercial entre os dois países”, falou o presidente-executivo da Abicalçados, Haroldo Ferreira.

O estado gaúcho também é o maior produtor de tabaco no país. Para o segmento na região Sul, o Sindicato Interestadual da Indústria do Tabaco (SindiTabaco) frisa que houve redução de 31% nas exportações para os EUA no primeiro semestre deste ano, considerando a taxação aplicada em 2025. No primeiro semestre de 2026, o Brasil exportou US$ 88,8 milhões para os EUA, o que representa uma redução de 31% em comparação ao período anterior. A estimativa de redução de valores exportados em 2025 e 2026 está na ordem de US$ 100 milhões.

“Caso as taxas sejam mantidas, o tabaco brasileiro perde a sua competitividade no mercado americano que tende a importar a matéria-prima de outras origens, principalmente a África, onde estão os maiores concorrentes do Brasil. Neste cenário, o Brasil deverá reduzir a sua produção proporcionalmente aos volumes historicamente embarcados para os EUA, uma vez que o mercado americano absorve estilos de tabaco pouco utilizados em outros mercados”, afirmou o SindiTabaco em nota.

Outra taxa

O governo de Donald Trump também prevê a aplicação de uma sobretaxa adicional de 12,5% por supostas falhas na fiscalização de importações produzidas com trabalho forçado. Ainda não se sabe se a sobretaxa seria cumulativa. A tarifa é resultado de outra investigação do USTR, que concluiu que a União Europeia e outros 59 países, dentre eles o Brasil, falharam em proibir e fiscalizar a importação de produtos resultados de trabalho forçado.

Guerra tarifária

Em nota, centrais sindicais brasileiras e a IndustriALL Brasil afirmaram que a política tarifária adotada pelo governo Trump vem sendo utilizada como instrumento de pressão política e econômica para ampliar interesses estratégicos do país em diversas regiões do mundo.

“Também nos preocupa que a investigação norte-americana tenha passado a questionar instrumentos e políticas públicas brasileiras, como o PIX. O Brasil tem o direito de desenvolver soluções próprias e inovadoras para seu sistema financeiro. Atacar o PIX é atacar a soberania nacional”, diz o documento.

O Pix passou a substituir cartões nas transações do dia a dia, afetando diretamente os lucros de grandes instituições financeiras norte-americanas. A adesão maciça reduziu drasticamente os custos de transação tanto para consumidores quanto para microeemprendedores no Brasil: pessoas físicas e MEIs não pagam tarifas. Empresas pagam, em média, 0,33% por operação — bem menos que os cartões de débito (entre 1,23% e 2%) e crédito (de 3% a 5%). Em alguns casos, a cobrança é isenta.

O sistema também começa a ganhar aceitação fora do país, como em estabelecimentos na América Latina e na França, o que ameaça o domínio do dólar no comércio internacional, como mostrou reportagem do jornal Extra Classe.

“As empresas de cartões e os Estados Unidos estão usando seu poder para dificultar o trabalho que o governo e o Banco Central vêm fazendo no aprimoramento do Pix. Há um receio que o Pix se expanda no mundo e que o mundo olhe o Brasil como uma referência que se possa copiar. O impacto sobre os cartões é bastante severo, mas para nós, brasileiros, é extremamente positivo. Se puder parcelar compras sem os custos que as empresas impõem, por exemplo, será uma revolução”, analisa o coordenador do Fórum das Centrais Sindicais, Clemente Ganz Lucio.

Crise 

Em 2025, no primeiro tarifaço, a família Bolsonaro se colocou a favor da medida contra o Brasil. Trump relacionou a tarifa ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de estado, ao que a esquerda brasileira reagiu, iniciando campanhas em defesa da soberania nacional. Nos últimos meses, encontros diplomáticos entre os presidentes Lula e Trump resultaram em uma estabilização do cenário entre os dois países.

A tarifa que entra em vigor neste 22 de julho também deve cair na conta da família Bolsonaro, já que foi retomada poucos dias após visita do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) aos Estados Unidos.

O Partido dos Trabalhadores, do presidente Lula, lançou esta semana a campanha O Brasil não se entrega para denunciar o tarifaço, que classifica como ataque dos Estados Unidos à soberania nacional e à economia brasileira. O PT atribui as medidas à atuação da família Bolsonaro no país e divulgará nas redes sociais a importância de proteger a economia e os interesses estratégicos do país.

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