MOVIMENTO

Relatos indígenas emocionam

Líderes de aldeias indígenas no Rio Grande do Sul contam sobre seu cotidiano de ameaças, violência e exclusão; e da alegria vivida nos territórios já retomados
Por Cristina Ávila / Publicado em 17 de abril de 2019

Cacique Santiago: Famílias que moram em assentamentos nas beiras de estrada sofrem violência permanente e há muitos casos de atropelamentos de crianças e jovens

Foto: Igor Sperotto

Um auditório lotado com quase 90 pessoas ficou em silêncio, e em total atenção, durante três horas na noite de quarta-feira, 16, para ouvir o depoimento de quatro caciques Mbya Guarani e de um líder Kaingang, de aldeias do Rio Grande do Sul, sobre o movimento da população indígena em solo gaúcho. A ênfase do encontro, promovido pelo jornal Extra Classe e realizado na Fundação Ecarta, em Porto Alegre, foi a luta empreendida para a Retomada de Territórios Tradicionais no estado – movimento repleto de alegria por parte dos indígenas, mas também de ameaças de mortes. “É preciso que o branco compreenda que essa luta não é nossa luta. Essa luta é da humanidade”. enfatizou o cacique André Benites, da Retomada Yvyrupá, área preservada da Mata Atlântica, no município litorâneo de Maquiné, cerca de 100 km de Porto Alegre. “Nós cuidamos a natureza”, sublinhou.

André Benites: Na Retomada, as crianças têm lugar pra nadar, pra brincar, para aprender em nossa escola que é a nossa própria vida. Nós voltamos a viver, a ser felizes.

André Benites: Na Retomada, as crianças têm lugar pra nadar, pra brincar, para aprender em nossa escola que é a nossa própria vida. Nós voltamos a viver, a ser felizes

Foto: Igor Sperotto

O movimento Retomada foi lançado há dois anos pelo povo Mbyá Guarani, que decidiu apressar a recuperação de seus territórios tradicionais, considerados áreas ancestrais pelas quais seus antepassados percorreram. “Nós vivíamos na beira da estrada, com muito sofrimento. A Retomada é tomar a terra que já era nossa. Onde viviam nossos antepassados. Na Retomada, as crianças têm lugar pra nadar, pra brincar, para aprender em nossa escola que é a nossa própria vida. Nós voltamos a viver, a ser felizes”, contou Benites. Yvyrupá é uma expressão que explica isso: designa a estrutura que sustenta o mundo terrestre e evoca o modo de vida livre antes da chegada dos europeus, sem fronteiras, sem divisas de municípios e com liberdade para a sobrevivência física e a espiritualidade.

Timóteo Guarani Mbyá relata que seguranças de empresários fazem ameaças até durante a noite nas aldeias

Timóteo relata que seguranças de empresários fazem ameaças até durante a noite na Retomada da Ponta do Arado

Foto: Igor Sperotto

O mais velho dos caciques presentes, Timóteo Guarani Mbyá, chegou cansado, com sono, no encontro. Ele contou o motivo para os presentes. “São ameaças de empresários. E dos guardas, pobres, que trabalham pra eles”, frisou. Ele se referia à tortura psicológica e ameaças de morte que a Retomada da Ponta do Arado, no bairro Belém Novo, em Porto Alegre, vem sofrendo há cerca de um ano para que saiam do lugar. As famílias indígenas resistem em um acampamento na margem do Guaíba e, por diversas vezes, acordam com a presença de homens encapuzados atirando. “Era tudo nosso. Aves, peixes, rios, e agora querem nos deixar debaixo da ponte e na beira das estradas”, lamentou o cacique.

São cinco Retomadas Mbya Guarani nos municípios de Porto Alegre, Viamão, Maquiné, Rio Grande e Terra de Areia. E duas Kaingang, em Canela e Carazinho. Mais de 2 mil indígenas vivem em 27 acampamentos na margem de estradas e em áreas degradadas, alguns montados há décadas, um deles com mais de 40 anos.

O povo Mbya Guarani foi um dos primeiros a ser atingido pelos europeus quando estes chegaram ao Brasil, mas mantém com muito empenho a sua cultura, o que evita serem totalmente exterminados. As crianças muitas vezes não sabem falar português, e se comunicam com os adultos somente na língua materna. O cacique Timóteo falou sobre a dificuldade que eles têm para se expressar em português. E André Benites acrescentou: “Pra mim é difícil falar em português, e fico orgulhoso por isso. Mas a gente tem que se esforçar pra traduzir nosso sofrimento e nem sempre é possível, não conseguimos traduzir. Esse espaço é muito importante, o esforço de cada um estar aqui pra nos escutar. Muitas vezes fico indignado, pois falamos e não sabemos pra quem. Porque não entendem direito? Como outros povos no Brasil, nos esforçamos pra entender a cultura de vocês, pra viver dentro da cidade. Por que vocês não se esforçam pra falar a nossa língua? Eu nunca gostei de igualdade, cada um é diferente, e é preciso respeitar essa diferença”.

 

Vivemos nesta terra sem fronteiras antes de 1500. Hoje continuam nos matando, diz o cacique Jaime Werá. “Agora, com caneta”.

Foto: Igor Sperotto

Os atropelamentos também foram mencionados, entre os problemas vividos pelos índios no Rio Grande do Sul, pelo cacique Santiago Franco, que mora em um território Guarani em Barra do Ribeiro. Em fevereiro do ano passado, quando ainda vivia acampado na margem da BR-116, no município, duas meninas da aldeia, uma de 21 anos e outra de 9 anos, morreram atropeladas sem que o motorista parasse para prestar socorro. Ele também ressaltou o preconceito. “Sofremos muita agressividade. No ônibus, muitas vezes, percebemos quando alguém não quer sentar do nosso lado”.

O cacique da terra Cantagalo, de Viamão, Jaime Werá, também falou sobre discriminação. “Às vezes nos dizem que somos argentinos, quando estamos aqui na nossa terra, no Brasil. Mas a própria natureza não tem fronteira. A água corrente tem fronteira? Vivemos nesta terra sem fronteiras antes de 1500. E continuam nos matando. Só que hoje, com caneta”.

Manifesto Yvyrupá

Na abertura do encontro, foi lançado o audiovisual Retomada Yvyrupá, um curta metragem de seis minutos narrado pelo cacique André Benites em sua aldeia em Maquiné.

Odirlei Fidelis: "“Estamos em um processo de desaculturação"

Odirlei Fidelis: “Estamos em um processo de desaculturação”

Foto: Igor Sperotto

O trabalho foi realizado pela gaúcha Cristina Ávila, o uruguaio Pablo Albarenga e o brasiliense André Corrêa, jornalistas, com apoio do Extra Classe e do Conselho Indigenista Missionário (Cimi). “É um filme pequeno, mas rico; forte em simbolismo”, disse Roberto Liebgott, dirigente do Conselho, que acompanha de perto a luta indígena. Segundo ele, no Rio Grande do Sul são cerca de 30 mil Kaingang, 2 mil Guarani e cerca de 50 Charrua, de uma família na Lomba do Pinheiro, em Porto Alegre. Os Charrua já foram considerados extintos, mas “ressurgiram”, como muitas dezenas de outros povos indígenas do Brasil que foram dados como extintos, mas estavam na realidade ocultos por causa da violência. Eles “reapareceram” devido ao fortalecimento das organizações indígenas, que têm como principal foco no país as Retomadas de Territórios Tradicionais.

Um dos mais ativos líderes indígenas gaúchos, Odirlei Fidelis lamentou: “Estamos em um processo de desaculturação, disse, representando o seu povo, os Kaingang. “Muda governo, e pra nós não muda nada”. Ele ressalta que a falta de demarcação dos territórios se reflete na saúde. “Quando eu era criança, pegava uma gripe quando a geada era muito forte. Hoje se eu for na minha aldeia, em Nonoai, eu passo frio e fico gripado da noite pro dia. Nosso contato é originalmente estreito com a natureza, nossas crianças se sujam na terra, mas o Conselho Tutelar nos chamou atenção porque nossas crianças estavam sujas, brincando no chão. A nossa natureza é andar de pé no chão. É isso que importa pra nós, é assim que estamos felizes”, defende.

“Que lição de vida os índios nos deram hoje”, exclamou Luiz Eduardo Gabech, professor do ensino privado que, atualmente, trabalha na Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social e Esporte. A maranhense Dayanne da Silva Santos, há menos de um mês morando em Porto Alegre para cursar doutorado na Ufrgs, se revelou admirada com a situação dos índios do Rio Grande do Sul. “Não imaginava tantas semelhanças com a nossa região”, disse, referindo-se à força cultural e à situação de risco em que vivem os índios no Rio Grande do Sul. A professora Lisiane Oliveira, que afirmou estar ali representando colegas da escola Oscar Schmitt, da Ilha das Flores, se emocionou. “Gostei muito. Adorei ouvir a fala deles. Nunca me senti tão perto dos indígenas. Obrigada pela oportunidade de estar aqui”, disse ao final do debate.

O evento contou com a parceria da Conselho Indigenista Missionária (Cimi), da produtora No Caminho Te Explico; da Fundação Ecarta e do Sindicato dos Professores do Ensino Privado do Rio Grande do Sul (Sinpro/RS)

Curta-metragem Retomada Yvyrupá

O público: olhos e ouvidos atentos

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