MOVIMENTO

15 anos do assassinato de Dorothy Stang

Missionárias companheiras de Dorothy propõem educação e união como forma de resistência às ameças de morte sofridas por ativistas e lideranças que defendem a Amazônia e os direitos dos povos da floresta
Por Clarinha Glock / Publicado em 7 de fevereiro de 2020
Dorothy Stang foi assassinada aos 73 anos de idade, em 12 de janeiro de 2005.

CPT/Divulgação

Dorothy Stang foi assassinada aos 73 anos de idade a mando de fazendeiros

CPT/Divulgação

No próximo dia 12 de fevereiro de 2020, completam-se 15 anos do assassinato da missionária norte-americana Dorothy Stang, 73 anos, em uma estrada de Anapu, Pará, com seis tiros, a mando de fazendeiros. Dorothy ajudou a implantar o Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) Esperança, um modelo alternativo ao sistema de exploração do agronegócio. Desde sua morte, uma vez por mês acontece na cidade uma reunião do Comitê em Defesa de Anapu (CDA). 

As irmãs Jane Dwyer e Katia Webster, companheiras de Dorothy Stang, estiveram no encontro Amazônia Centro do Mundo, realizado na Universidade Federal do Pará, em Altamira, em novembro passado. Na ocasião, foram entrevistadas pelo jornal Extra Classe. Irmã Katia acompanhou a conversa e fez uma pequena intervenção ao final. As duas afirmaram a importância da educação como forma de resistência. Contatada novamente em fevereiro de 2020, por telefone, irmã Jane comentou que teme pelas ameaças aos defensores de direitos humanos, como Erasmo Teófilo. E adiantou as propostas que serão levadas por trabalhadores de Anapu ao Congresso da Comissão Pastoral da Terra (CPT) em julho deste ano, em Marabá (PA).

No dia 12 de fevereiro, romarias e homenagens vão lembrar o crime contra Dorothy Stang e as ameaças contra defensores da preservação da Amazônia e dos direitos dos povos da floresta.

 

Foto: Clarinha Glock

Jane Dwyer e Katia Webster: A gente tem que aprender a defender uns aos outros, tomar cuidados, mas não deixar de lutar. Todo mundo em Anapu está em perigo

Foto: Clarinha Glock

Extra Classe – O que é discutido no Comitê em Defesa de Anapu?
Irmã Jane – É o lugar em que o povo vai para conversar, partilhar dificuldades e procurar, juntos, saídas viáveis. Nesse último (na ocasião, ela se referia a novembro de 2019), tivemos uma oficina sobre cacau e “cabruca”. “Cabruca” é aprender a tirar uma árvore para ter luz, mas não desmatar. Vieram jovens da Casa Familiar Rural, que ajudamos a criar. Houve um momento de paixão e troca entre trabalhadores e a juventude. Os trabalhadores falaram sobre os problemas da agricultura familiar e mostraram como enxertar e clonar cacau. Havia jovens de 12 a 16 anos. No outro dia, eles se uniram a mais uns 60 jovens, entre 10 anos e 18 anos, uma mistura de gente da igreja adventista de São Rafael, local onde Dorothy está enterrada, para ajudar a limpar o rio.

Extra Classe – Qual a importância desses encontros?
Irmã Jane – De repente casou a caminhada dos trabalhadores mais velhos e a juventude do município. Estamos muito animadas. São filhos e filhas de famílias de Anapu que lutam por um pedaço de terra.

Extra Classe – Desde 2015, segundo a CPT, houve 19 assassinatos de lideranças e agricultores em Anapu. Como é viver sob ameaça?
Irmã Jane – A gente tem que aprender a defender uns aos outros, tomar cuidados, mas não deixar de lutar. Todo mundo em Anapu está em perigo. Daqueles que foram assassinados de 2015 até hoje, o primeiro era um jovem de 17 anos, Hércules. De lá pra cá foram assassinados também o tio e um primo dele. Ninguém foi preso pela morte de Hércules. Ao lado do túmulo de Dorothy, junto ao Centro de Formação São Rafael, há uma cruz vermelha onde estão escritos os nomes de todos que foram assassinados.

Romaria em defesa da Floresta Amazônica marca, anualmente, o assassinato de Dorothy

Foto: Comitê Dorothy Stang

Romaria em defesa da Floresta Amazônica marca, anualmente, o assassinato de Dorothy

Foto: Comitê Dorothy Stang

Extra Classe – Vocês vão levar um documento ao V Congresso Nacional da CPT, que será realizado de 12 a 16 de julho deste ano, em Marabá. O que diz o documento?
Irmã Jane – O Congresso tem três eixos: rompendo cercas, tecendo teias, e criando produção e vida. Escolhemos o tema “rompendo cercas para tecer e produzir” (ver quadro abaixo). Os trabalhadores vão estar lá para dar exemplos concretos de algumas ações. Entre as propostas, está a de acolher e integrar cada vez mais a juventude através da interação com a Casa Familiar Rural e os vários grupos de jovens. Na produção, queremos continuar as oficinas, fortificar a força coletiva, criar e renovar viveiros para reflorestar, e continuar a tradição de troca de sementes e mudas.

Extra Classe – A cidade de Anapu surgiu a partir da construção da Transamazônica e da colonização da época. Que mensagem vocês enviariam para a população do Sul do país sobre a importância da Amazônia?
Irmã Jane – Quem está na Amazônia defende o clima do Rio Grande do Sul, tanto quanto o daqui e do resto do mundo. Como se pode perder uma beleza e uma riqueza dessa, assim, nas mãos dos predadores? A terra não pertence aos indígenas e nem a nós. Nós é que pertencemos à terra e somos responsáveis por cuidar dela.
Irmã Katia – Antigamente os estudos amazônicos faziam parte do currículo nas escolas do Norte. Agora, não mais. Então, o desafio é recolocar a Amazônia no currículo, não só da educação formal, como da educação popular, dentro do contexto do Brasil e da América Latina, geograficamente, cientificamente, politicamente. Os jovens querem nos dizer o que precisam para ser gente e criar-se neste mundo. Então, cabe a nós, que somos um pouco mais velhas, criar espaços onde possam falar e nós escutarmos.Trecho do Relatório que será levado por trabalhadores de Anapu para o Congresso da CPT em julho, em Marabá (Pará).

 

Propostas dos trabalhadores de Anapu que serão levadas ao Congresso da Comissão Pastoral da Terra

Rompendo as cercas de Contratos de Alienação de Terras Públicas (CATPs):
– de grileiros, madeireiros, mineradoras, políticos
– de assassinatos de 19 companheiros desde 2015
– da perca de companheiros e companheiras com a vida ameaçada
– das ameaças contínuas, abertas e veladas, de perder as terras depois de tantos anos de luta
– do medo da violência

Tecendo…
– nos organizando por comunidade, lote, região, município, estado
– aprofundando nossas motivações e nossa fé na base comunitária e coletiva de nossa caminhada (místicas, estudos bíblicos)
– nos mantendo informados, atualizados, atentos às ameaças ao nosso redor (jornais populares, encontros de formação)
– mantendo nosso Comitê em Defesa de Anapu (CDA) e as reuniões mensais
– cuidando e convivendo com as viúvas e órfãos de nossos companheiros
– lembrando e celebrando sempre nossas e nossos companheiros e companheiras assassinados/as em 12 de fevereiro, Romaria da Floresta

 

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