MOVIMENTO

Lideranças religiosas acusam Bolsonaro de conduta “fria e criminosa” e aderem a impeachment

Esse é 63º pedido à Câmara dos Deputados para abertura de processo para afastar o presidente e a primeira ação coordenada de igrejas contra o mandatário, por “gestão errática” frente à pandemia
Por Flávio Ilha / Publicado em 27 de janeiro de 2021
Pela primeira vez, representantes de igrejas representam contra Bolsonaro

Foto: Lula Marques

Pela primeira vez, representantes de igrejas representam contra Bolsonaro

Foto: Lula Marques

Quase 400 lideranças e movimentos religiosos de todo o país, incluindo católicos, luteranos, evangélicos e anglicanos, entre outras congregações, protocolaram na noite de terça-feira, 26, pedido de impeachment do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) na Câmara dos Deputados.

O texto formulado pela Associação Brasileira de Juristas pela Democracia (ABJD) a pedido das lideranças religiosas acusa Bolsonaro pela “gestão errática” frente à pandemia de coronavírus, que já causou a morte de 219 mil brasileiros. Sustenta ainda que a marcha acelerada da pandemia no Brasil “foi uma fria e criminosa escolha política do presidente”, que ignorou, segundo os signatários, orientações e compromissos com a ciência e com o engajamento em diretrizes de organismo internacionais.

"Nem todo cristianismo é bolsonarista", diz o pastor luterano Inácio Lemke

Foto: Portal Luteranos/ Divulgação

“Nem todo cristianismo é bolsonarista”, diz o pastor luterano Inácio Lemke

Foto: Portal Luteranos/ Divulgação

“Como cristãos e cristãs, entendemos ser nosso dever participar da luta pela promoção e defesa dos direitos humanos e contra qualquer tipo de opressão ou ação que tenha como resultado o adoecimento e a morte da população. Por esse motivo é que nos colocamos na luta pelo afastamento do senhor presidente da República Jair Messias Bolsonaro”, referendam os signatários no pedido.

O documento conta com adesões de importantes entidades e personalidades do meio religioso, como o presidente do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (Conic), Inácio Lemke, o bispo primaz da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB), Naudal Alves Gomes, e José Valdeci Santos Mendes, presidente da Comissão Episcopal Pastoral para Ação Sociotransformadora da CNBB. No total, 379 lideranças religiosas assinam o documento, além de 17 movimentos e coletivos.

Menosprezo e sabotagem

Com esse, já são 63 os pedidos de impeachment protocolados na mesa diretora da Câmara dos Deputados contra Bolsonaro.

No texto, a ABJD lista um conjunto de “transgressões” praticadas pelo presidente em diversas áreas de ação governamental, “decisivas na perpetração de um pernicioso processo de esvaziamento de políticas públicas de inspiração constitucional, assim como de subversão de diretrizes constitucionais relacionadas com direitos focados principalmente na área da saúde pública”.

O documento usa termos como “menosprezo” e “sabotagem” para classificar os crimes de responsabilidade de Bolsonaro que embasam o pedido de impeachment, entre eles a infração ao artigo 5º da Constituição, que trata dos direitos fundamentais dos cidadãos, a exemplo da saúde. “Infringir o direito à saúde da população brasileira é usurpar a base constitucional e constitutiva da República”, afirmam.

Instrumentalização da fé

"Deus acima de tudo – não estamos de acordo com a instrumentalização da fé”, resume o monge Marcelo Barros

Foto: Divulgação

“Deus acima de tudo – não estamos de acordo com a instrumentalização da fé”, resume o monge Marcelo Barros

Foto: Divulgação

Segundo Inácio Lemke, presidente do Conic, a ausência de iniciativas do governo para diminuir os impactos da pandemia pode ser sintetizada pela crise vivida no Amazonas, onde a segunda onda causou ainda mais mortes. “Essa é a nossa tarefa como pessoas de fé”, resume.

Lemke pondera que a iniciativa pode não agradar à totalidade dos religiosos. “Temos consciência de quem nem todas as pessoas das nossas igrejas são favoráveis a esse ato que estamos fazendo, mas é importante destacar essa pluralidade e as contradições que existem no âmbito do cristianismo. Nem todo cristianismo é bolsonarista”, afirmou.

O monge menonita Marcelo Barros disse que Bolsonaro tem se beneficiado da utilização “desonesta” da religião. “Um dos slogans que trouxe o atual presidente ao poder foi ‘Deus acima de todos’. Muitos religiosos e religiosas das mais diversas religiões precisavam vir a público para dizer que não estamos de acordo com a instrumentalização da fé”, disse.

A CNBB informou que, na condição de colegiado, não assina pedidos de impeachment. O organismo signatário do pedido ligado à CNBB, segundo a instituição, é a Comissão Brasileira de Justiça e Paz (CBPJ).

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