Crônica
Matemática básica
Existem dez mil estrelas no universo para cada grão de areia terrestre, considerando todas as…

Ilustração: Diferson Trindade
A qualquer hora depois da meia-noite e antes das seis da manhã, segue pela João Pessoa, em direção ao Centro, passando por baixo do viaduto José Loureiro da Silva e chegando à Salgado Filho; aí, em vez de descer pro oeste, sobe pro leste; uma vez posicionado diante da fachada do Super Tropical Lanches, dá meia-volta e olha pro sul; agora, bem na tua frente, está a pracinha Campos Sales, com o seu formato circular; caminha até ela e te senta no banco de concreto a leste; por fim, olhando pro oeste, ergue um pouco a cabeça: no oitavo ou nono andar de um prédio alto que fica nessa direção, tu vai ver uma janela permanentemente aberta, cujo cômodo é permanentemente iluminado por uma luz vermelha.
Sei que a janela fica sempre aberta e que a luz é sempre vermelha porque não foram poucas as madrugadas em que estive sentado nesse mesmo banco de concreto, depois de jogar sinuca no Eski Bar, tomar umas saideiras no Du Neida e comer um risoto no Super Tropical Lanches. A última ocasião se deu em pleno carnaval, na virada de segunda pra terça. Estávamos eu, meu primo Secão, que de seco já não tem mais nada há muitos anos, e a Carol, uma amiga que tinha ficado à frente do Eski Bar durante a ausência da Jussara, a dona do lugar.
– Eu sempre fico me perguntando se aquela luz vermelha lá em cima é um cabaré – comentei.
– Se pá o Tropical não fecha de madrugada porque o pessoal da Santa Casa come aí, né? – sugeriu a Carol.
– Bah, uma vez tentaro me assaltar aqui nessa praça – contou o Secão.
O motivo dos assuntos desconexos já tinha virado fumaça e subido pra cuca, como diz o rap. Mas a história da tentativa de assalto vingou.
– Tentaro e não conseguiro? – perguntei.
– Te liga só – o Secão continuou. – Era dois malandro sentado bem aqui. Eu tava passando, indo pra casa da minha namorada na época. De madrugada, que nem agora. Um breu, um breu! Ninguém na rua. Um frio, um frio! Era inverno. Os malandro se levantaro e viero. Tu acredita que era o Diga e o Gão?
Eu e o Secão começamos a rir. A Carol quis saber o motivo da graça.
– É dois cara lá do Pinheiro – expliquei. – A gente se criou tudo junto.
– “Que sorte a tua, Secão!”, eles me dissero. “Não, que azar o de vocês”, eu respondi.
Desde que a gente tinha sentado ali, já havia um morador de rua dormindo no outro banco. Ele acordou com as nossas risadas e veio pedir um cigarro. Dei. E foi quando ele voltava pro canto dele que tudo aconteceu. Um ônibus, vindo no sentido bairro-centro, parou naquele ponto que fica debaixo do viaduto, pra embarcar alguém; logo em seguida, um carro surgiu e freou de maneira espetacular, ficando atravessado na João Pessoa, bem na frente do coletivo; o motorista do carro, visivelmente bêbado, desembarcou e começou a bater boca com o motorista do ônibus.
– Lá atrás tu bateu em mim, pode ficar parado bem aí! Não vai a lugar nenhum!
O morador de rua, já sentado no seu banco, olhou para nós.
– Bah, uma tretinha antes de dormir tem o seu valor!
– Ô! – concordei, sinceramente empolgado com o pequeno espetáculo que se descortinava diante de nós.
– E nós aqui, assistindo tudo de camarote, ainda por cima – brincou a Carol.
O ônibus tentou desviar do obstáculo e seguir o seu rumo, mas o motorista do carro orientou a esposa, que tinha ficado dentro do veículo, junto com outro casal, pra que ela assumisse o volante e manobrasse pra cá e pra lá, sempre obstruindo a passagem do coletivo. A cena patética se repetiu algumas vezes, durante uns bons cinco minutos. Mas, aí, a cavalaria chegou.
Não, não me refiro aos brigadianos; esses deviam estar muito ocupados espancando foliões na Cidade Baixa. Refiro-me às mulheres que desembarcaram pela porta de trás do ônibus, um grande grupo de amigas. Mães de família, suponho; cansadas de pular carnaval, suponho; loucas pra chegar em casa e arrematar sem estresse uma das poucas oportunidades de diversão no ano inteiro, suponho.
Em poucos segundos o conflito estava encerrado. Vendo aquele batalhão feminino indignado, o motorista do carro botou o rabo entre as pernas e orientou a esposa pra que manobrasse o veículo, desta vez abrindo espaço pro ônibus passar. As mulheres, então, tornaram a embarcar no coletivo, que por fim seguiu o seu rumo, provocando uma comemoração generalizada: comemoramos nós, comemorou o morador de rua, comemoraram os passageiros do ônibus, comemoraram os clientes do Tropical, comemoraram os curiosos nas janelas dos prédios ao redor.
José Falero é escritor e roteirista, autor dos livros Vila Sapo, Os Supridores, Vera e Mas em que mundo tu vive? e escreve, desde março de 2026, mensalmente para o Extra Classe.