POLÍTICA

A luta de classes e a reinvenção da esquerda

Por Flávio Ilha / Publicado em 9 de outubro de 2020
“As classes trabalhadoras, de forma confusa e despolitizada, cobram radicalidade, perderam a fé no sistema. E, no geral, temos uma esquerda liberal, domesticada”

Arte: Bold Comunicação

“As classes trabalhadoras, de forma confusa e despolitizada, cobram radicalidade, perderam a fé no sistema. E, no geral, temos uma esquerda liberal, domesticada”

Arte: Bold Comunicação

O youtuber e historiador Jones Manoel já era famoso e reunia milhares de seguidores quando Caetano Veloso inventou de citá-lo numa entrevista em um programa televisivo de grande audiência como seu mais novo xodó no campo da política. Foi o que bastou para que seus canais no Youtube, onde posta vídeos semanalmente sobre marxismo, e Revolushow, de podcasts, superassem os milhões de acessos – coisa impensável para um militante do histórico Partido Comunista Brasileiro (PCB), o Partidão, que aborda temas áridos para a internet, como socialismo, liberalismo, imperialismo e outros ismos. Filho da favela da Borborema, no Recife (PE), Jones Manoel da Silva, 30 anos, é historiador pela Universidade Federal de Pernambuco e mestre, pela mesma instituição, em Serviço Social. Já vendeu jornais em esquinas, atuou como educador popular, militou no movimento estudantil a partir dos anos 2010 e hoje é responsável por um debate político que tenta recolocar a esquerda em nova perspectiva a partir da crescente reação de setores conservadores aos pequenos avanços sociais dos últimos anos. Nesta entrevista ao Extra Classe, Jones nos fala do que considera os erros dos governos populares de Lula e Dilma, da crença de que só a revolução é capaz de mudar radicalmente o país, da ingenuidade da oposição ao presidente Jair Bolsonaro e dos desafios não cumpridos pelo sindicalismo brasileiro. “O que a esquerda brasileira precisa, inclusive para voltar a ter força eleitoral, é um renovado trabalho de base, focado na ação junto às necessidades concretas e diárias da população”, avalia. Confira os principais trechos:

Extra Classe – Sua militância marxista já tem uma década, mas só a partir do episódio envolvendo uma celebridade como Caetano Veloso que sua atuação ganhou uma visibilidade fora dos canais da esquerda. Qual importância você atribui ao episódio para a causa da educação política da sociedade brasileira?
Jones Manoel – Veja, eu não acho que apenas a partir do episódio com Caetano minha atuação política tenha ganhado visibilidade para além da esquerda. Eu participo, por exemplo, de um podcast chamado Revolushow que tem mais de 2 milhões de downloads por ano. E, em 2019, nos lançamentos do meu livro (junto com Gabriel Landi) Revolução africana (Autonomia Literária, 2019) viajei para mais de 30 cidades do país. Só por esses dois exemplos é possível afirmar que já estávamos alcançando um público para além da esquerda. Agora, é claro, dado o peso do Caetano na cultura brasileira e de sua fama, inclusive mundial, a fala dele me projetou para outro patamar de visibilidade pública. Isso é notório. Ajudou e muito na projeção do trabalho. E a importância do episódio é que pela primeira vez em anos o liberalismo brasileiro teve que prestar contas de sua história de sangue, racismo, escravidão, colonialismo, golpes de Estado, ditaduras e simpatias por regimes fascistas e de apartheid.

EC – Por que o/a brasileiro/a médio/a tem tanta aversão à participação política? Atribui isso de alguma forma à herança da ditadura militar?
Jones – A participação política faz sentido quando ela oferece resultados concretos. Note, o senso comum de que “político é tudo igual”, embora errado, faz sentido. Desde o fim da ditadura empresarial-militar, tivemos governos do PT, PSDB, PMDB e afins, mas o problema do analfabetismo, da moradia, do transporte, segurança, cultura, lazer e tantos outros nunca foram resolvidos. Entra eleição e sai eleição, embora com algumas melhoras, todas as questões da vida do povo trabalhador – o que se chama de expressões da questão social – continuam lá, e agravadas. Aliado a isso, não podemos deixar de considerar que vivemos num país extremamente violento. Quem milita, participa da política, morre no Brasil – desde lideranças indígenas, camponesas e quilombolas até políticos como Marielle Franco. Eu mesmo sofro recorrentes ameaças nas minhas redes sociais. Então, você tem um misto fundamental de três coisas: a) um sistema político antidemocrático, hermético às demandas populares; b) um processo despolitizante, constantemente estimulado, principalmente, pelos monopólios de mídia; c) uma violência política e um terrorismo estatal intensos, que visam impedir a organização e a ação política dos de baixo.

EC – Muito antes das ações de criminalização da política pela Lava Jato, uma parcela expressiva da população já demonstrava rejeição a teses centrais dos governos de centro-esquerda, como a distribuição de renda, cotas raciais, democracia participativa etc. A que atribui essa rejeição?
Jones – Interesses materiais concretos. Faz sentido prático para as classes médias, por exemplo, ser contra as cotas. Por décadas, o acesso ao ensino superior era um diferencial de classe e garantia, quase que com certeza, da reprodução da sua condição de classe média. Com o aumento do acesso universal ao ensino superior, você tem uma competição maior por melhores trabalhos e uma redução dos salários de administradores, contadores, advogados, economistas etc. Também pense que a redução da miséria e da pobreza absolutas no Brasil – e não a distribuição de renda – muda a competição por bens materiais e simbólicos. As reclamações sobre “aeroporto parecer rodoviária” mostram um incômodo de setores da classe média com uma mudança nos padrões de consumo e acesso a certos bens. A burguesia, quando decidiu se livrar do PT, soube muito bem atiçar esses ódios, rancores e disputas por bens simbólicos e materiais. O PT, por anos, esqueceu a luta de classes. A burguesia nunca esqueceu.

EC – Em função dessa resistência, acredita na tese de uma revolução brasileira?
Jones – A revolução brasileira, o socialismo, é o único caminho para o Brasil. Note que, como já disse, nunca resolvemos nenhum dos problemas fundamentais do país, nem o analfabetismo foi superado. Já tivemos ciclos desenvolvimentista, neoliberal, militar-empresarial e muitos outros. E continuamos uma verdadeira tragédia para as maiorias populacionais. Mudar radicalmente a economia, a política, a cultura, as relações agrárias e tudo que precisa ser mudado a partir de uma política radical, buscando construir o poder popular, é o único caminho para o Brasil. Lênin dizia que “fora do poder, tudo é ilusão”. Eu diria mais: fora do poder popular, tudo é ilusão.

“A burguesia, quando decidiu se livrar do PT, soube muito bem atiçar esses ódios, rancores e disputas por bens simbólicos e materiais"

Foto: Reprodução

“A burguesia, quando decidiu se livrar do PT, soube muito bem atiçar esses ódios, rancores e disputas por bens simbólicos e materiais”

Foto: Reprodução

EC – Qual é o programa dessa revolução brasileira? Quais suas premissas fundamentais?
Jones – Temos três pressupostos fundamentais como aparece no programa do PCB: a) a compreensão de que o Brasil já é um país plenamente capitalista e que os nossos problemas não são fruto de corrupção, ineficiência administrativa, má aplicação de recursos etc. – ainda que tudo isso seja um problema. O problema fundamental do país é o capitalismo dependente, que não garante vida digna para a classe trabalhadora, soberania nacional, proteção dos nossos recursos naturais. As tarefas fundamentais para mudar a vida do povo trabalhador, portanto, passam por construir um projeto revolucionário, socialista; b) se a burguesia brasileira não tem nada a oferecer, as nossas alianças políticas devem refletir a união dos explorados e oprimidos do campo e da cidade, conjugada com setores das camadas médias, intelectuais e pessoas da cultura. Não temos e nem queremos ter aliança com a burguesia, seus partidos e lideranças. Queremos construir uma frente anticapitalista e anti-imperialista, que seja a expressão de união da classe trabalhadora com vistas à conquista do poder; e c) construir o poder popular, embora passe também por eleições, não é um processo, em essência, institucional. Precisamos organizar os explorados e oprimidos para a conquista do poder, usando todos os meios necessários, como diria Malcolm X. Já temos inúmeras provas de que a burguesia latino-americana e o imperialismo não aceitam o mais tímido projeto reformista, quem dirá uma alternativa revolucionária – lembre-se da experiência de Salvador Allende no Chile, por exemplo.

EC – Existem inúmeras teorias da revolução na literatura da ciência política. Qual se ajusta melhor ao caso brasileiro, considerando nossa formação econômica, social e política?
Jones – A melhor contribuição para pensar o Brasil e a revolução é a Teoria Marxista da Dependência (TMD), que tem seu pilar nas obras de Ruy Mauro Marini, Vânia Bambirra e Theotônio dos Santos. A TMD é o programa de pesquisa, e ao mesmo tempo projeto teórico-político, mais promissor do Brasil. E não apenas nos clássicos citados, mas em toda uma nova geração de pensadores/as e militantes que vem aprofundando a compreensão que temos do Brasil, América Latina e do mundo. Posso citar, por exemplo, os nomes de Rodrigo Castelo, Fernando Correa Prado, Marina Machado Gouvêa, Adriano Nascimento e muitos outros.

EC – Você já disse em uma entrevista recente que o presidente Jair Bolsonaro tem a pior oposição que já se fez na história deste país. Na sua opinião, quais erros a oposição mais tem cometido?
Jones – Considero três erros fundamentais. Em primeiro lugar, é uma oposição que apela para a moderação e para o compromisso numa época de radicalização. As classes trabalhadoras, de forma confusa e não muito politizada, cobram radicalidade, perderam a fé no sistema. E, no geral, temos uma esquerda liberal, domesticada. O segundo ponto é não abordar com centralidade os problemas materiais da nossa classe trabalhadora, como desemprego, fome, aumento da pobreza e miséria, encarecimento do custo de vida etc. Por último, temos uma esquerda que pensa a política apenas na dimensão eleitoral, não tem preocupação com trabalho de base, com comunicação militante, formação política, disputa de consciência. Pensa a eleição como um fim em si mesmo. Não disputa consciência política, mas apenas voto.

EC – Há possibilidade de uma composição com setores de centro capaz de derrotar o projeto fascista em 2022?
Jones – Acho que não devemos pautar a política pelo calendário eleitoral, sem desprezar, é claro, a importância do momento eleitoral. O que a esquerda brasileira precisa, inclusive para voltar a ter força eleitoral, é um renovado trabalho de base, focado na ação junto às necessidades concretas e diárias da população; uma dedicação gigantesca à comunicação militante, à formação política, ao trabalho político-cultural, em suma, fazer a disputa pela hegemonia e radicalizar suas propostas, palavras de ordem, programa político, forma de fazer política. Não é questão de marketing eleitoral melhor ou uma aliança eleitoral mais ampla com tempo de TV maior, mas renovar totalmente o que se entende por esquerda nesse país. Renovação num sentido radical, popular, socialista, anti-imperialista.

EC – Qual importância você atribui a questões como racismo, feminismo e orientação sexual para o debate político da esquerda?
Jones – Não existe capitalismo sem opressões. Como bem lembra o filósofo Domenico Losurdo, o liberalismo, expressão ideológica por excelência da burguesia, defendeu por décadas a escravidão e por mais tempo ainda o colonialismo e a negação de direitos civis e políticos das mulheres. A exploração no chão da fábrica e da empresa sempre usou, e nunca deixará de usar, no capitalismo, as formas de opressão racial, de gênero e sexualidade como forma de dividir a classe trabalhadora e potencializar a exploração e a dominação política. Logo, as lutas contra as opressões não são “lutas identitárias”, como erroneamente muitos colocam. Lutar contra as opressões deve ser lutar contra o capitalismo e a exploração. O xis da questão é que existem muitas visões ideológicas liberais de “combate” às opressões, essas sim com prisma identitário. Precisamos criticar e combater o liberalismo dentro dos movimentos e em espaços de luta contra as opressões, mas nunca afirmar que essas lutas são secundárias. Não são. Como diria Malcolm X, “não existe capitalismo sem racismo”. O raciocínio do Doutor X serve para todas as opressões.

“... pela primeira vez em anos o liberalismo brasileiro teve que prestar contas de sua história de sangue, racismo, escravidão, colonialismo, golpes de Estado, ditaduras e simpatias por regimes fascistas e de apartheid”

Foto: Mídia Ninja/ Reprodução

“… pela primeira vez em anos o liberalismo brasileiro teve que prestar contas de sua história de sangue, racismo, escravidão, colonialismo, golpes de Estado, ditaduras e simpatias por regimes fascistas e de apartheid”

Foto: Mídia Ninja/ Reprodução

EC – Qual o futuro do sindicalismo num contexto de desregulamentação das relações de trabalho e com a uberização crescente?
Jones – Infelizmente, hoje, o sindicalismo não consegue mais cumprir sua tarefa histórica. E que tarefa é essa? O sindicalismo tem três metas principais: a) realizar uma guerra de guerrilha permanente contra o capital em defesa dos salários, condições de trabalho e direitos da classe; b) ser um espaço de formação política e politização dos trabalhadores; c) ser um espaço de socialização, divertimento, solidariedade, identificação de classe. No geral, o sindicalismo falhou nessas tarefas. Durante o período petista, quando o nível de emprego estava alto, em vez dos sindicatos irem para cima, cobrar aumento de direitos e redução da jornada de trabalho, houve uma certa domesticação. O ex-presidente Lula, em uma entrevista à Folha de S. Paulo antes de ser preso, se orgulhou de que no seu governo as ocupações de terra e greves baixaram a nível histórico. Para ele, isso seria uma prova da “paz social” do seu governo. Aliado a isso, problemas históricos da luta sindical brasileira não foram enfrentados nesses anos de domínio do “novo sindicalismo”: a burocratização das entidades e sua existência apenas cartorial, o histórico baixo nível de sindicalização dos trabalhadores brasileiros, a dificuldade de organizar desempregados e trabalhadores autônomos, a baixa tradição de usar o sindicato como um espaço de formação política e teórica etc. Nesse sentido, o sindicalismo brasileiro precisa se reinventar. Precisa aprender com a experiência dos argentinos na organização dos autônomos e desempregados, com a experiência dos gregos na organização dos pequenos lojistas e comerciantes, com a experiência do México e da Bolívia na organização dos camponeses e assalariados agrícolas. Em suma, pegar as experiências já existentes, sem cópia, sem soluções fáceis, para pensar os nossos problemas graves e urgentes nesse campo.

EC – Você tem sido bastante atacado, tanto à direita quanto à esquerda? Já foi chamado de “stalinista”, por um lado, e de “treteiro” pelo outro. Como se posiciona sobre esses rótulos?
Jones – Como diz uma grande pensadora brasileira: “desejo a todas as inimigas vida longa/ para que elas vejam a cada dia mais a nossa vitória”. Isso não passa de formas de desqualificação, muito pautadas pelo racismo e por elitismo, para evitar o debate teórico e político. Não me importo com isso. Estranho seria se fosse o contrário. Comunistas, na história, sempre foram perseguidos. Ser xingado por liberal na internet é quase nada comparado com o que militantes históricos do PCB já passaram. Fora isso, durmo tranquilo sabendo que esses ataques são prova da incapacidade de um debate teórico comigo. E, claro, citando outra grande pensadora, “para mim é uma honra vocês não gostarem de mim”. Odiaria se esse tipo de gente me tivesse em alta conta.

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