Política
A reforma trabalhista que não entregou o prometido e o risco de argentinização
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Trump vinha oscilando entre neutralidade e apoio logístico a Israel e adotou uma postura mais beligerante nos últimos dias, apesar de ter seu governo dividido sobre a questão
Foto: Daniel Torok/ White House Facebook/ Reprodução
As tensões entre Israel e Irã entraram em um novo patamar nesta semana com as ameaças diretas de Donald Trump ao aiatolá Ali Khamenei. Se o conflito que faz com que os dois países troquem saraivadas de mísseis desde a última sexta-feira, 13, começou após supostos ataques preventivos israelenses a instalações militares e centros de pesquisas iranianas, a resposta de Teerã para a insinuação pouco velada de assassinato do líder supremo do país persa veio de imediato: “Agora é que a batalha começou”, afirmou Khamenei.
Por trás de tudo, não só os interesses sionistas, mas também razões estratégicas, econômicas e geopolíticas norte-americanas. Entre elas, deter esforços do Irã em parceria com a China de reduzir a dependência do dólar e a Nova Rota da Seda.

O líder supremo do Irã, Ali Khamenei, que Trump chama de alvo fácil, afirma que a batalha recém começou
Imagem: Reprodução
Trump vinha oscilando entre neutralidade e apoio logístico a Israel e adotou uma postura mais beligerante nos últimos dias, apesar de ter seu governo dividido sobre a questão.
Em postagem na sua rede social, a Truth Social, afirmou que “Khamenei é um alvo fácil” e que os Estados Unidos “não hesitarão em agir”. A retórica foi recebida com preocupação por analistas e diplomatas que veem na fala de Trump um gesto incendiário, capaz de minar qualquer possibilidade de negociação.
O embaixador aposentado, ex-ministro das Relações Exteriores do Brasil e atual assessor especial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Celso Amorim, entende que a troca de bombardeios “é resultado da política de impunidade dada a Israel pelas potências ocidentais”. Para ele, os Estados Unidos precisam assumir um papel de moderação, “não de incitamento”.

Para o ex-ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, os Estados Unidos precisam assumir um papel de moderação ao invés de incitar ao ódio e à guerra
Foto: Fábio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil
A escalada acontece no rastro da ofensiva israelense iniciada sob o pretexto de prevenir avanços nucleares do Irã. Paradoxalmente ou hipocritamente para críticos do regime sionista – ao contrário de Israel – o Irã é signatário do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP) e vem cooperando com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), mesmo sob críticas por avançar no enriquecimento de urânio.
Há uma clara assimetria nas expectativas e julgamentos internacionais, denuncia Reginaldo Nasser, professor de Relações Internacionais na PUCSP e líder do Grupo de Estudos Sobre conflitos Internacionais da instituição no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Geci/CNPQ).
“O Irã, mesmo sob sanções e pressões, participa do regime internacional de controle nuclear. Já Israel age à margem do TNP e responde com força desproporcional a qualquer ameaça percebida”, afirma Nasser. Para o professor da PUCSP, “esse duplo padrão mina a legitimidade do discurso ocidental”.
O professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC), Gilberto Maringoni, lembra que o TNP na realidade é uma imposição “hegemonista” norte-americana. Em suas palavras, uma “hipocrisia mundial” em torno das armas nucleares.
“Por que, em 200 países do mundo, 192, 194, não podem ter e oito bonitos podem?”, pergunta retoricamente Maringoni diante, em especial, das cinco nações consideradas potenciais nucleares, Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido.
Seguindo sua crítica, Maringoni questiona – ao lembrar que os Estados Unidos atiraram bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki. “Seriam (as potências nucleares) mais responsáveis?”, ironiza.
O professor da UFABC frisa que, ao não ser signatário do TNP, Israel não tem nenhum tipo de inspeção sobre seus programas nucleares. “No entanto, sabe-se que Israel tem cerca de 90 ogivas”, considera.

Assimetria: mesmo sob pressão, o Irã participa do regime internacional de controle nuclear, ao contrário de Israel, observa Nasser, da PUCSP
Foto: PUCSP/ Divulgação
O embaixador Amorim assinala outro ponto de atenção no conflito entre Israel e Irã: o desvio da atenção internacional do que está acontecendo em Gaza, também sob patrocínio do regime do premiê sionista Benjamin Netanyahu.
“Uma vítima colateral desses ataques é tirar o foco de Gaza”, afirma o ex-chanceler brasileiro. Algo, continua Amorim, “altamente prejudicial à paz na região”.
Um exemplo claro foi o adiamento de uma reunião na ONU que trataria entre os dias 17 e 20 de junho do reconhecimento do Estado da Palestina.
Se, para Maringoni, “Israel não tem como perder militarmente essa guerra (com os palestinos)”, o custo político e moral é cada vez maior devido ao crescente “desgaste diplomático e isolamento internacional que enfrenta por estar massacrando uma população indefesa”.
Mesmo assim, promovendo aquilo que define como genocídio e crime contra a humanidade, o enclave sionista, diz Maringoni, está dobrando a aposta ao promover os ataques contra o Irã.
Para ele, existe uma intenção deliberada de Netanyahu em promover um confronto aberto com o Irã. “Israel quer ampliar o campo de conflito, atacando o Irã para tentar arrastar os Estados Unidos para uma guerra de maior escala na região”, projeta.
Esse movimento, segundo Maringoni, busca tanto enfraquecer um rival regional histórico quanto garantir o apoio e envolvimento direto da principal potência militar do planeta. “A escalada contra o Irã é parte de quem deseja elevar o nível da guerra e ampliar seus aliados”, analisa.

“No entanto, sabe-se que Israel tem cerca de 90 ogivas”, contrapõe Maringoni, professor da UFABC
Foto: Divulgação
Maringoni aponta interesses estratégicos, econômicos e geopolíticos dos Estados Unidos que colaboram para uma aliança histórica e inabalável com Israel. “Eles veem em Israel um aliado fundamental para manter sua presença e influência no Oriente Médio, região estratégica por seus recursos energéticos e posição geopolítica.”
O professor ainda ressalta que o governo americano teme o fortalecimento do Irã, visto como ameaça à segurança de Israel e à ordem estabelecida por Washington. “O Irã, além de rivalizar com Israel, busca desafiar a hegemonia americana na região”, lembra.
Além da dimensão militar, Maringoni chama a atenção para o papel central do Irã na Iniciativa Cinturão e Rota – a chamada Nova Rota da Seda, liderada pela China. “O Irã tem um protagonismo importante na Nova Rota da Seda, servindo de elo estratégico entre a Ásia e a Europa”, pontua. Para Maringoni, a integração do Irã ao megaprojeto chinês fortalece conexões comerciais e torna o país uma peça valiosa no tabuleiro geopolítico mundial.
Outro aspecto central destacado é a tentativa do Irã, em conjunto com a China, de fugir da dependência do dólar nas transações internacionais. “Tanto a China quanto o Irã vêm buscando rotas comerciais, acordos bilaterais e sistemas financeiros alternativos para reduzir a centralidade do dólar americano”, explica.
Isso implica uma busca de autonomia e soberania econômica ante pressões e sanções impostas pelos Estados Unidos. “A aposta do Irã nesta articulação é estratégica: enfraquecer a capacidade de coerção dos Estados Unidos e ampliar sua margem de manobra no cenário global”, conclui Maringoni.