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Foto: Vatican Media/Divulgação
Há 135 anos, o Papa Leão XIII defendeu os direitos dos trabalhadores diante das máquinas da Revolução Industrial. Hoje, seu sucessor, Leão XIV, enfrenta um desafio de magnitude semelhante — desta vez, diante das máquinas que pensam. Apresentada nesta manhã, 25 de maio, no Salão Sinodal do Vaticano, a encíclica Magnifica Humanitas (A Magnífica Humanidade) propõe nada menos do que recolocar a dignidade da pessoa humana no centro da era digital.
A primeira encíclica do atual pontificado segue a linha de Papa Francisco, falecido em abril de 2025, mas chega carregada de historicidade. A presença de Leão XIV, por si só, deu importância ao evento. Até então, nenhum chefe da Igreja Católica havia participado pessoalmente da apresentação de uma de suas encíclicas.
Tradicionalmente, os documentos são promulgados pelo papa, mas a apresentação pública costuma ficar a cargo de cardeais, teólogos ou responsáveis pelos dicastérios da Santa Sé. Em muitos casos, o texto simplesmente é publicado oficialmente, sem um evento com presença ativa do pontífice.
Leão XIV, na realidade, encerrou a cerimônia, na qual falaram o Cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado da Santa Sé; o Cardeal Víctor Manuel Fernández, prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé; Anna Rowlands, professora de Pensamento e Prática Social Católica na Durham University, no Reino Unido, e membro do Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral; Christopher Olah, cofundador da Anthropic, empresa norte-americana de inteligência artificial; Leocadie Lushombo, professora na Jesuit School of Theology da Universidade de Santa Clara, na Califórnia, natural da República Democrática do Congo e também membro do Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral; e o Cardeal Michael Czerny, prefeito do Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral.
O papa não hesitou em usar uma palavra forte ao ecoar o apelo histórico ao desarmamento nuclear: “A inteligência artificial precisa ser desarmada. A palavra é forte, eu sei. Mas foi escolhida deliberadamente porque esse momento exige palavras capazes de chamar a atenção, despertar as consciências”, afirmou.

Foto: Vatican Media/Divulgação
A abertura da cerimônia coube ao Cardeal Pietro Parolin, que traçou o paralelo central do documento. “Há 135 anos, Leão XIII soube reconhecer nas transformações industriais uma questão profundamente humana e social. Hoje, diante do poder das tecnologias digitais, a Igreja é novamente chamada a discernir os sinais da história”, disse.
Parolin destacou, no entanto, uma novidade significativa: ao contrário da época da Revolução Industrial, quando a Igreja tinha dificuldade de dialogar com os atores econômicos, “hoje esse diálogo já está em andamento e envolve instituições, governos, universidades, empresas e centros de pesquisa”.
O cardeal alertou para um descompasso central: “A velocidade com que esse poder se acumula corre o risco de superar a capacidade das instituições e até mesmo da consciência individual de orientá-lo. Essa assimetria entre poder técnico e sabedoria moral é talvez o desafio mais profundo que Magnifica Humanitas nos apresenta”.
Ao Extra Classe, o prefeito do Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral, cardeal Michael Czerny, afirmou: “Esta encíclica poderia se chamar Rerum Novarum Novissimus (uma nova Rerum Novarum). A mim consola que, 135 anos depois, um papa com o mesmo nome abrace o mesmo desafio; isto é muito relevante”.
O Cardeal Víctor Manuel Fernández trouxe à tona o que chamou de “os parágrafos mais teologais” da encíclica, do número 118 ao 130. Para ele, o documento enfrenta diretamente as correntes do transumanismo e do pós-humanismo, que propõem “substituir a humanidade” ou “superar todos os limites” por meio da tecnologia.
“O limite nem sempre é um defeito a ser corrigido, mas um lugar onde o humano amadurece e se abre à relação”, afirmou Fernández. “Para suprimir totalmente a dor, seria preciso extinguir também o amor, pois quem ama sempre sofre.”
Fernández recordou que a encíclica celebra exemplos concretos da “humanidade magnífica e ferida”: obras como a Sinfonia nº 9, Guernica e o filme A Lista de Schindler; figuras históricas como Martin Luther King Jr., Nelson Mandela e Dorothy Day; e ainda os mártires do cotidiano — pais, enfermeiros, médicos e voluntários. “Diante de formas de pós-humanismo que chegam a propor a substituição da humanidade — disse o cardeal —, paramos para contemplar essas pessoas e esses fatos que nasceram do coração do ser humano.”
A professora Anna Rowlands, teóloga da Durham University e membro do Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral, aprofundou a pergunta central da encíclica: o que significa ser plenamente humano na era da inteligência artificial. Para ela, o documento não é neutro — assim como as tecnologias também não são neutras.
“Sem verdades orientadoras, nossa liberdade torna-se pouco mais que um instrumento nas mãos de poderes arbitrários”, afirmou.
Ela denunciou a concentração de poder nas mãos de poucos atores privados, cujas “culturas estão ocultas ao escrutínio do bem comum e correm o risco de se apresentar como um novo império”.
Anna também sublinhou a crítica da encíclica às ideologias salvacionistas. “Não seremos salvos pelo mercado, nem pelo Estado-nação, nem pela inteligência artificial, nem por seus pós-humanismos ou transumanismos.”
Olah revelou que os modelos de IA seguem sendo, em aspectos importantes, um mistério até para seus criadores. “Eles são criados a partir de nós, a partir de nossas palavras, e continuam sendo um mistério. Às vezes descrevo isso como dar vida a um personagem de fantasia.” Ele relatou descobertas inquietantes em suas pesquisas: “Detectamos estruturas que refletem a neurociência humana. Encontramos evidências de introspecção. Estados internos que parecem corresponder a padrões associados a alegria, medo, dor e engano. Não sei o que isso significa.”
Embora pesquisadores identifiquem comportamentos complexos nos modelos, não há consenso científico de que sistemas de IA possuam consciência ou experiências subjetivas comparáveis às humanas.
Olah fez três pedidos à Igreja: compromisso com os pobres do mundo, para que os benefícios da IA sejam compartilhados globalmente; imaginação moral sobre o que significa uma vida próspera; e discernimento sobre a “estranha natureza” desses modelos. “Precisamos de críticos competentes que digam aos laboratórios quando eles estão errando. Precisamos de vozes morais que os incentivos não consigam abalar.”

Foto: Vatican Media/Divulgação
Leocadie Lushombo, da República Democrática do Congo, professora da Jesuit School of Theology da Universidade de Santa Clara, apontou a denúncia de que crianças e adolescentes do Sul Global trabalham “em condições perigosas, triturando os materiais dos quais são extraídos elementos de terras raras” para alimentar o fluxo computacional.
A IA, lembrou, pode facilmente assumir traços colonialistas. “Ela não parece compatível com a indigenidade e a autenticidade. É mais provável que contribua para violar ainda mais os direitos do Sul Global.”
Leocadie resgatou filosofias comunitárias como o ubuntu (“sou humano porque pertenço”), o jeong coreano (conexão emocional) e o gotong royong da Indonésia (carregar fardos juntos) como antídotos à visão isolada e desencarnada da aprendizagem automatizada. “Nós, seres humanos, aprendemos melhor quando somos amados e encorajados. Nosso conhecimento é relacional.”
“O Papa Leão adverte-nos a não perdermos a nossa maravilha para a IA. Ele apela para repensar o papel dos professores, a organização das escolas e métodos de avaliação para fornecer uma educação autenticamente integrada que forma o interior e a pessoa inteira, permitindo o crescimento em virtude”, pontuou.
O Cardeal Michael Czerny propôs três chaves de leitura: engenhosidade, consciência e cuidado. Ele reconheceu a IA como “uma grande realização da engenhosidade humana”, que revela algo da criatividade divina, mas alertou: “O que está sendo construído é aberto e inacabado. A direção que a IA toma não está inscrita na própria tecnologia. Depende de nossas escolhas.”
Sobre a consciência, Czerny citou o Concílio Vaticano II: “A consciência é o núcleo mais secreto e o santuário do homem. Ali, ele está só com Deus, cuja voz ressoa em seu íntimo.” E concluiu que a “civilização do amor” é o caminho para que a era digital não se transforme em uma era de dominação.
Ao encerrar a cerimônia, o Papa Leão XIV fez um apelo direto. Relembrando sua experiência como missionário no Peru, durante as enchentes de 2017, afirmou que “reconstruir não significa simplesmente substituir o que foi destruído. Significa reparar laços, restaurar a confiança, reavivar a esperança no futuro”.
Citando o profeta Neemias, que reconstruiu os muros de Jerusalém com o povo desanimado, o pontífice afirmou: “A inteligência artificial pode ser um canteiro de obras da história a partir de um horizonte de comunhão, no qual o progresso técnico aprende a servir a vida humana.”
E concluiu em um tom que mescla urgência e esperança: “Não temamos a inteligência artificial, mas mantenhamos constantemente em jogo a questão do humano. Cada pessoa é única e insubstituível. Um sujeito livre e inteligente, dotado de consciência, capaz de servir uns aos outros e cuidar da nossa casa comum.”
A encíclica agora será enviada a todas as conferências episcopais, universidades católicas e lideranças globais, com a expectativa de que se torne referência nos debates sobre regulação, ética algorítmica e futuro do trabalho.