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20/01/2016
MOVIMENTO

Fórum Social faz balanço de 15 anos e atualiza agenda de lutas

Marcha de abertura do Fórum Social Temático Porto Alegre evidencia força e vitalidade da agenda inaugurada em 2001
Marco Weissheimer

O Fórum Social Mundial foi criado em 2001 como um contraponto ao Fórum Econômico Mundial, que reúne anualmente na cidade suíça de Davos representantes do grande capital que comanda a economia do planeta. Porto Alegre foi escolhida como cidade sede para iniciar um movimento internacional em defesa de outro tipo de globalização. A capital gaúcha havia se tornado, então, uma referência mundial em democracia participativa. Além disso, o estado do Rio Grande do Sul era governado por Olívio Dutra (PT), que também vinha implementando políticas de ampliação da democracia participativa, entre outras ações que caminhavam na contramão da lógica financeira defendida e implementada pelos organizadores e participantes do Fórum de Davos. Realizado no salão de eventos da PUCRS, a primeira edição do Fórum Social Mundial foi um sucesso, dando início a um movimento que se espalharia por vários continentes nos anos seguintes e influenciaria, especialmente, o futuro político da América Latina.

Fórum Social Temático Porto Alegre

Fotos: Igor Sperotto

Marcha de abertura do Fórum Social Temático Porto Alegre

Fotos: Igor Sperotto

Quinze anos se passaram desde esse primeiro encontro do movimento altermundista, uma data que está sendo aproveitada para um balanço da trajetória do FSM neste período e sobre as suas perspectivas de futuro. O Fórum Social Temático Porto Alegre, de 19 a 23 de janeiro, fará a primeira etapa desse balanço. Além de procurar fazer um balanço dos 15 anos do FSM, o encontro de Porto Alegre será preparatório ao próximo grande encontro anual do Fórum Social Mundial, que acontecerá de 9 a 14 de agosto, no Canadá. Ao final do evento, em Porto Alegre, ocorrerá uma reunião do Comitê Internacional do FSM.

2001-2016: semelhanças e diferenças
Ao fazer uma comparação entre as realidades políticas de 2001 e 2016, Mauri Cruz, integrante da Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (Abong) e membro do Comitê de Apoio Local do Fórum Social Mundial Porto Alegre, avalia que há uma grande semelhança entre a conjuntura política e econômica atual e a que marcou o nascimento do FSM em 2001, marcada pelo avanço do conservadorismo, das políticas econômicas neoliberais e da ameaça da guerra. “Na época, no cenário global, vivíamos o clima da guerra do Iraque. Quinze anos depois, praticamente todo o Oriente Médio está envolto em guerra e conflitos”, lembra. A novidade, hoje, acrescenta Mauri Cruz, é o clima de esgotamento e desencanto com os limites das experiências de governo de esquerda e centro-esquerda na América Latina.

Outra diferença apontada por Mauri Cruz tem a ver com o perfil dos participantes do Fórum. “Em 2001, tínhamos uma presença muito forte de intelectuais europeus, sindicatos e movimentos sociais latino-americanos mais tradicionais. Agora, em 2016, deveremos ter uma diversidade maior, com a presença de muitos representantes do movimento negro, de comunidades indígenas, das organizações feministas como a Marcha Mundial de Mulheres, movimentos ambientalistas e de juventude”, aponta. Esse novo perfil vem acompanhado por um fato inédito. “Nós conquistamos a paridade de gênero em todas as atividades do Fórum, algo que é inédito e fruto da luta das mulheres nestes últimos anos. A Primavera das Mulheres estará presente no Fórum de Porto Alegre”, comemora Jussara Cony, vereadora do PCdoB na capital gaúcha e participante do FSM desde a sua primeira edição.

Como em outros fóruns, o encontro de Porto Alegre tem em uma ampla e diversificada agenda de debates. Mas há um fio condutor que percorre toda a programação do Fórum Social Temático: o balanço desses 15 anos e os desafios para o futuro. Mais de 470 atividades autogestionadas foram inscritas, pela internet, para ocorrer até sexta-feira, além das mesas de convergência, sempre na parte da tarde, reunindo os diferentes movimentos sociais que participam do processo do FSM. Além destas, há dezenas de atividades paralelas associadas à programação oficial do Fórum. As principais atividades ocorrem no Parque da Redenção, no Auditório Araújo Vianna, no Largo Zumbi dos Palmares, na Câmara de Vereadores de Porto Alegre e na Assembleia Legislativa. O Acampamento da Juventude, no Parque da Harmonia, também está sendo palco de vários debates e atividades culturais.

Uma tenda com a memória viva dos 15 anos do Fórum Social Mundial foi instalada na entrada do Auditório Araújo Vianna, com um acervo de imagens, vídeos e materiais diversos relacionados às diversas edições do FSM realizadas pelo mundo. As inscrições para participar das atividades do FSM Porto Alegre podem ser feitas pelo site do evento ou, diretamente, nas próprias atividades, durante todos os dias do evento.

Marcha de abertura reuniu cerca de 10 mil pessoas

A marcha de abertura oficial do Fórum Social Temático Porto Alegre, realizada no final da tarde de terça (19), no centro da capital gaúcha, reuniu cerca de 10 mil pessoas e deu uma demonstração de força e vitalidade da agenda inaugurada em 2001. A concentração, no Largo Glênio Peres, ao lado do Mercado Público, iniciou às 15h e se estendeu até às 18 horas, quando a marcha começou a subir a avenida Borges de Medeiros em direção ao Largo Zumbi dos Palmares, ponto final da manifestação. Participaram da marcha militantes de sindicatos, partidos políticos, movimentos sociais e um variado leque de organizações populares e comunitárias. Um pouco antes do início da marcha, o prefeito José Fortunati recebeu em seu gabinete alguns políticos que acompanharam o Fórum Social Mundial desde o seu início, como o ex-prefeito de Porto Alegre, Raul Pont, o ex-governador Olívio Dutra, e o ex-vice governador e hoje ministro do Trabalho e da Previdência Social, Miguel Rossetto. Todos eles marcharam lado a lado, desde o Mercado Público até o Largo Zumbi dos Palmares.

Como ocorreu em outras edições do FSM, a marcha colorida e repleta de faixas, cartazes, balões e palavras de ordem percorreu a avenida Borges de Medeiros em um clima pacífico e alegre. Militantes do PT e do PCdoB puxaram palavras de ordem contra a tentativa de impeachment da presidente Dilma Rousseff. As centrais sindicais centraram fogo nas críticas às propostas de Reforma Trabalhista e Reforma da Previdência, que podem tramitar este ano no Congresso Nacional. A maior parte das reivindicações se relacionava mesmo com a conjuntura nacional. Participante do Fórum desde o seu início, o ex-prefeito de Porto Alegre, Raul Pont, destacou a manutenção da vitalidade do movimento, 15 anos depois, e apontou aquele que considera um desafio para o futuro: a defesa da democracia contra a progressiva privatização de espaços públicos e a subordinação da política à lógica e aos interesses do capital financeiro.

Globalização e crise civilizatória
Essa relação entre a democracia e as restrições impostas pelo sistema financeiro internacional é um tema que atravessa as mesas de convergência. A primeira delas, realizada na tarde de quarta-feira, no Auditório Araújo Vianna, debateu as desigualdades sociais e a crise civilizatória alimentada pelo modelo neoliberal de globalização. Socorro Gomes, ativista da Cebrapaz, destacou que o Fórum Social Temático Porto Alegre está sendo realizado em um momento único na história da humanidade, marcado pela crescente ameaça da barbárie no planeta. “O que domina este mundo hoje é a insanidade capitalista. A defesa da vida dos povos e da vida do planeta é um tema extremamente atual, como mostra, por exemplo, o drama vivido por milhares de refugiados hoje na Europa. Estamos vivendo hoje um risco civilizacional. Defender a paz significa defender a soberania dos povos”.

O jornalista Leo Gabriel, que vive na Áustria, lembrou que, quando iniciou o Fórum Social Mundial, em 2001, o centro da Europa era um lugar tranquilo. Hoje, quinze anos depois, a convulsão social, política e ideológica está na ordem do dia. “É um continente dividido entre os que não querem os estrangeiros e os que, como nós, apoiamos os milhares de refugiados que escapam das guerras no Oriente Médio para sobreviver. Há uma guerra mundial sendo travada na Síria, envolvendo as maiores potências globais, que pode assumir dimensões ainda maiores. Há uma direita fascista que está ameaçando a paz no mundo”, assinalou o jornalista.  Leo Gabriel anunciou que ocorrerá uma conferência de 26 a 29 de fevereiro, na Áustria, com o objetivo de articular uma frente social e política na Síria, independente dos diferentes interesses imperialistas que estão em disputa hoje naquele país.

Para o sociólogo Boaventura de Sousa Santos, é fundamental fazer o balanço de 15 anos do Fórum Social Mundial. “Em 2001, havia a ideia de que existia uma globalização hegemônica e uma globalização contra-hegemônica. Tivemos inclusive um diálogo direto entre Davos e Porto Alegre. Mas o que ocorreu nestes 15 anos que impediu a emergência de uma globalização alternativa? Não foi possível construir articulações entre diferentes movimentos e não conseguimos deter a arrogância do capital financeiro. A lógica da guerra e da luta contra o terrorismo acabou prevalecendo. Essa guerra foi corroendo as possibilidades de globalização”, disse Boaventura.

Outro problema que atravessou esses 15 anos, acrescentou o sociólogo, foi a divisão, dentro do Fórum, entre os que eram contra o neoliberalismo e os que eram contra o capitalismo. “Penso, hoje, que, quem tinha razão eram os que estavam contra o capitalismo. O que vimos nos últimos anos, em vários países, foi a pilhagem de países inteiros com a destruição de direitos e de vidas”. No início do FSM, assinalou ainda Boaventura, tomou-se a decisão que o Fórum não deveria assumir posição política. “Qual é a tragédia disso? Mantivemos o consenso, mas esvaziamos o Fórum, tornando-o irrelevante. Penso que os mais novos devem levar isso muito a sério. Neste momento, há um encontro estadual do MST ocorrendo aqui perto, com mais de mil participantes. Por que não estão aqui?”, questionou. “Porque aqui se discute muito, mas não se toma posição sobre nada”.

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