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21/06/2017
SAÚDE

Precisamos falar sobre doação de órgãos e tecidos na escola

A partir de iniciativa da Fundação Ecarta em parceria com o Colégio Emilio Massot, todas as turmas tiveram a oportunidade de debater com profissionais de saúde sobre o tema
Por Clarinha Glock

Doação de órgãos e tecidos na sala de aula

Foto: Glaci Borges/Ecarta/Divulgação

Foto: Glaci Borges/Ecarta/Divulgação

O que é morte encefálica? Fazer doação de medula dói? Se doar órgãos, chega a sobrar alguma coisa do corpo para depois cremar? E se doar pele? As curiosidades e mitos relativos à doação de órgãos e tecidos foram tema da aula da noite de terça-feira, dia 20 de junho de 2017, de estudantes do Curso Técnico do Colégio Estadual Coronel Afonso Emílio Massot, em Porto Alegre. Durante o mês, outras turmas, desde o primeiro ano do Ensino Fundamental até as séries finais do Ensino Médio, também receberam a visita de enfermeiras voluntárias da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre ou do Hospital São Lucas, da PUCRS. Foi a primeira vez, na história de cinco anos do Projeto Cultura Doadora da Fundação Ecarta, de Porto Alegre, que uma escola inteira acolheu o projeto para sensibilizar e promover a doação de órgãos e tecidos.

Nos encontros, através de vídeos, conversas e trocas de experiências, jovens de todas as idades tiram dúvidas, recebem informação, são incentivados a falarem com familiares e amigos sobre a importância de difundir o tema.  As palestras são feitas por integrantes das equipes de Organização de Procura de Órgãos (OPO) da Santa Casa e do Hospital São Lucas, em parceria com o Banco de Córneas da Santa Casa. Nos corredores e em algumas salas do Colégio Emílio Massot, cartazes com imagens e frases de famílias de doadores e de pessoas que passaram por transplantes de órgãos despertam a atenção de professores, funcionários e estudantes. Até o final do mês, os banners vão ficar expostos na escola Emílio Massot para ajudar na conscientização.

Nos corredores e em algumas salas do cartazes com imagens e frases de famílias de doadores e de pessoas que passaram por transplantes de órgãos

Foto: Igor Sperotto

Nos corredores e em algumas salas do cartazes com imagens e frases de famílias de doadores e de pessoas que passaram por transplantes de órgãos

Foto: Igor Sperotto

A ideia de trazer a Cultura Doadora para o colégio Emílio Massot partiu da orientadora educacional Caroline Mascela, que havia assistido a uma palestra na Escola Estadual de Ensino Fundamental Madre Maria Selima, onde trabalha no turno da manhã como alfabetizadora. “Nunca tinha pensado no assunto, nem tinha opinião a respeito”, lembrou. Driblou as resistências a atividades que fogem do currículo e conseguiu transmitir seu entusiasmo para a direção do Emílio Massot. “É importante que essas ideias se multipliquem. Vejo que as pessoas ainda têm um certo preconceito contra a doação de órgãos, acham que vão ‘tirar’ algo delas. Mas se pode mudar outras vidas”, salientou.

As trocas de informações são sempre carregadas de emoção, porque mexem com um assunto delicado, que é a morte, explica Marcos Fuhr, presidente da Fundação Ecarta. “A doação trabalha com a ideia da finitude do ser humano e, portanto, há dificuldade em lidar com essa temática junto a crianças e adolescentes. Então, o projeto exige perseverança e criatividade para chegar a este público”, diz Fuhr. “No nosso entendimento, é preciso formar estes valores na mais tenra idade e a experiência evidencia que mesmo os menores têm capacidade de compreender”, acrescenta. “É um assunto que faz jovens e crianças pararem para prestar atenção e pensar, mesmo nas turmas mais agitadas”, salienta Glaci Borges, produtora do Cultura Doadora. O projeto tem um momento de perguntas, e muitas vezes os questionamentos envolvem a bagagem de violência que cerca estudantes e escolas, como amigos que morreram com um tiro na cabeça, ou familiares doentes.

Para as voluntárias Katiane Rocha e Rosane Dias Borges, enfermeiras da Santa Casa que estiveram no Colégio Emílio Massot falando sobre doação na aula do dia 20, a sensação após a conversa com estudantes era de satisfação. “É maravilhoso. Para cada idade temos de usar uma linguagem adequada, porque se fala sobre morte”, explicou Katiane. “Às vezes, isso assusta”, completou Rosane. Com as crianças menores, uma estratégia é fazer uma comparação com outros tipos de doação…alimentos, cabelos…até chegar aos órgãos. Os maiores questionam muito sobre morte encefálica, quem autoriza, como se tem certeza.

Para cada idade temos de usar uma linguagem adequada, porque se fala sobre morte

Foto: Igor Sperotto

Para cada idade é preciso usar uma linguagem adequada, porque se fala sobre morte

Foto: Igor Sperotto

Na prática, o resultado dessas conversas pode realmente salvar alguém. Quando há um jovem junto da família na entrevista que se faz antes da doação, eles têm mais aceitação, acredita Katiane. Ela lembrou de um menino de 12 anos que convenceu os demais familiares. Os mais velhos não queriam assinar os papéis autorizando, mas ele insistiu: o pai havia sido um herói para ele em vida e, se doasse seus órgãos, continuaria sendo um herói. Simbolicamente, a equipe deixou que o garoto assinasse junto a autorização de doação.

Quem assistiu à aula no Colégio Afonso Emílio Massot ficou, no mínimo, sensibilizado. Matheus Janowitz, 22 anos, estudante do Curso Técnico em Contabilidade, estava ciente da necessidade de ser doador. “O que puder fazer, eu vou! Nunca conversei a fundo, mas vou falar com minha avó e irmã”, avisou. Mal tinha acabado a palestra, Carlos Rocha, 25 anos, já tinha passado uma mensagem via celular para a namorada contando que estavam falando sobre doação de órgãos e tecidos na escola. Durante o bate-papo, relatou para o grupo sobre o caso de um amigo que tinha se mudado de Manaus para Porto Alegre justamente para ficar perto de um Centro de Transplante. Rocha foi para casa depois da aula decidido a dar o primeiro passo: doar, pela primeira vez, sangue”.

Escolas interessadas em receber a visita do Projeto Cultura Doadora

O Projeto Cultura Doadora conta com a parceria de médicos, enfermeiros e assistentes sociais e promove ações, em todo o Estado para sensibilizar as pessoas para o tema de doação de órgãos. Oferece palestras, oficinas e cursos de formação, materiais e subsídios pedagógicos.

CONTATOS:

www.ecarta.org.br

Fone: (51) 4009-2970

E-mail: contato@fundacaoecarta.org.br

 

 

 

 

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