CoronaVac: parlamentares convocam Anvisa e Butantan para debate

Audiência pública virtual deve confrontar versões sobre morte de voluntário que levou a agência reguladora a interferir no desenvolvimento da CoronaVac pelo instituto
Interrupção de testes com vacina antiCovid produzida em São Paulo pela chinesa Sinovac foi usada politicamente pelo Planalto

Interrupção de testes com vacina antiCovid produzida em São Paulo pela chinesa Sinovac foi usada politicamente pelo Planalto

Foto: Butantan/ Divulgação

A interrupção das pesquisas sobre a vacina contra o coronavírus comemorada pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) na última terça-feira, será tema de uma audiência pública da comissão mista que acompanha as medidas do Poder Executivo no enfrentamento à pandemia de Covid-19.

O presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Antonio Barra Torres, e o diretor do Instituto Butantan, Dimas Tadeu Covas, participam da audiência pública virtual na próxima sexta-feira. Os requerimentos para a realização do debate foram aprovados nesta quarta, 11, por senadores e deputados, em reunião da comissão, que é presidida pelo senador Confúcio Moura (MDB-RO).

Em um episódio cercado de contradições e poucos esclarecimentos, a Anvisa, que é presidida por um aliado de Bolsonaro, suspendeu os testes da vacina CoronaVac em humanos na última segunda-feira. Sem apresentar detalhes do caso, a agência informou por meio de nota que a interrupção ocorreu devido a um “evento adverso grave”. Torres sustenta que a decisão de suspender os testes foi técnica. A vacina é desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac em parceria com o Instituto Butantan, ligado ao governo de São Paulo.

Torres, da Anvisa, sustenta que a decisão foi técnica

Torres, da Anvisa, sustenta que a decisão foi técnica

Foto: Agência Senado

O Instituto Butantan criticou a medida. Em entrevista coletiva, o presidente do órgão de pesquisa informou que o “evento adverso grave” não teve relação com a vacina – um dos voluntários que participou dos testes teria cometido suicídio. Como a informação foi mantida em sigilo por questões éticas, Jair Bolsonaro aproveitou a oportunidade para fazer mais um ataque ao desenvolvimento da vacina em sua cruzada de negação da pandemia.

A politização em cima da grave crise de saúde pública pelo presidente foi condenada pelos parlamentares.

Dimas Covas, do Butantan: "impossível que efeito adverso tenha relação com a vacina"

Dimas Covas, do Butantan: “impossível que efeito adverso tenha relação com a vacina”

Foto: Governo de São Paulo/ Divulgação

O senador Izalci (PSDB-DF), presidente da Frente Parlamentar Mista de Ciência, Tecnologia, Inovação e Pesquisa, classificou como “lamentável” a paralisação das pesquisas com a CoronaVac. O parlamentar lembrou que “ciência não tem partido”.

“O Instituto Butantan não pode sofrer o que está sofrendo. Ele tem 126 anos, produz e distribui 80% da vacina H1N1. O Butantan não é do Doria. É do povo brasileiro. Não dá para fazer o que fizeram. Lamento muito a posição da Anvisa. Foram negligentes e politizaram” criticou.

O senador Espiridião Amim (PP-SC) disse que a comissão mista tem “responsabilidade e autoridade” para convocar os representantes da Anvisa e do Instituto Butantan. O parlamentar criticou a politização que envolve a vacinação contra o coronavírus. O tema é alvo de embates públicos entre o presidente Jair Bolsonaro e o governador de São Paulo, João Doria. “Ninguém aqui é ingênuo para achar que só um lado está politizando. Está havendo politização em exagero, sim. Mas não venham dizer que é mocinho contra bandido. Que é o bem contra o mal. Como toda politização radical, é de ambas as partes”, afirmou.

Revolta e indignação

Para a senadora Eliziane Gama (Cidadania), Anvisa assumiu postura ideológica e política. "Comemoração do presidente é algo que nos traz revolta e indignação"

Para a senadora Eliziane Gama (Cidadania), Anvisa assumiu postura ideológica e política. “Comemoração do presidente é algo que nos traz revolta e indignação”

Foto: Edilson Rodrigues/ Arquivo/ Agência Senado

A senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA) disse ter recebido a notícia da suspensão das pesquisas com “muita indignação”. Ela criticou ainda uma publicação nas redes sociais em que o presidente da República comemora a decisão da Anvisa de interromper os testes. Nas redes sociais, Bolsonaro comemorou, referindo-se a ele próprio na terceira pessoa: “Mais uma que Jair Bolsonaro ganha”.

“Mais de 1,2 milhão de pessoas vieram a óbito em todo o mundo. No Brasil, mais de 162 mil pessoas. Milhões de famílias em todo o mundo aguardando o início da vacinação em massa. Aqui no Brasil, os estudos caminhando. Mas, de repente, temos uma suspensão. Não era esperado. A gente vê notadamente uma postura ideológica e política na Anvisa, e não uma postura técnica. E a comemoração do presidente da República é algo que nos traz revolta e indignação”, indignou-se Eliziane.

A senadora Zenaide Maia (Pros-RN) também criticou a interrupção das pesquisas. Ela lembrou que o Instituto Butantan, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e o Instituto Evandro Chagas são referências internacionais na área de pesquisa biomédica.

“Quando li a notícia, doeu. Eu conheço a história do Butantan, da Fiocruz e do Evandro Chagas. Nós temos os melhores virologistas do mundo. O que doeu ali foi porque era como se se questionasse a credibilidade do Instituto Butantan. Isso não é para ser politizado. Nós nunca vamos ter a sensibilidade do presidente da República em relação à covid. Na verdade, ele é indiferente”, lamentou.

O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) citou uma reportagem do jornal britânico The Telegraph. Segundo a matéria, o Reino Unido pode começar a vacinação em massa dos cidadãos no dia 1º de dezembro com três imunizantes diferentes. “Estamos mal e muito atrasados. A gente fica no meio de uma briga política. A mortalidade pode começar a diminuir na Grã-Bretanha a partir da vacinação, e aqui a gente mistura vacinação com briga política. É lamentável”.

*Com informações da Agência Senado.

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