EDUCAÇÃO

Para 89% dos pais, o retorno às aulas presenciais depende de vacina

Pesquisa realizada pelo Comitê de Acompanhamento da Crise Educacional mostra que vacinação gratuita em massa será determinante para retorno das aulas não remotas
Por César Fraga / Publicado em 7 de agosto de 2020
Apenas 14% dos alunos das escolas municipais possuem acesso à banda larga, contra mais de 60% da rede privada

Fotos: Foto: Igor Sperotto (esq e dir. inferior)) e Anna-lena Menna Barreto (dir. superior)/Arquivo Extra Classe

Apenas 14% dos alunos das escolas municipais possuem acesso à banda larga, contra mais de 60% da rede privada

Fotos: Foto: Igor Sperotto (esq e dir. inferior)) e Anna-lena Menna Barreto (dir. superior)/Arquivo Extra Classe

Foi apresentada na manhã desta sexta, 7 de agosto, a segunda parte dos resultados da pesquisa produzida pelo Comitê Popular Estadual de Acompanhamento da Crise Educacional no RS e pela Associação Mães & Pais Pela Democracia. Os dados foram coletados entre os dias 23 e 28 de julho através de um questionário online e a segunda etapa corresponde à opinião das 1191 mães, pais e responsáveis sobre a educação durante a pandemia.

Conforme pesquisa, 89% das mães, pais e responsáveis consideram importante que os poder res públicos forneçam uma vacina gratuita e em massa para viabilizar o retorno presencial às escolas em Porto Alegre.

A socióloga Aline Kerber, presidente da Associação Mães & Pais Pela Democracia e uma das responsáveis técnicas pela pesquisa, afirma que os dados apontam cautela de pais e mães. “As mães e pais avaliam que os estudantes só devem voltar às aulas com vacina, testes de sintomáticos e em massa, redução dos casos de Covid por 14 dias consecutivos”, explica.

A coordenadora da pesquisa destaca também, que os pais veem o rodízio de alunos com temeridade pois a medida seria insuficiente para evitar aglomeração, seja pela precariedade já conhecida, seja pela falta de profissionais para limpeza e de professores.

“As mães e pais só voltam às aulas com vacina, com testes de sintomáticos e em massa, com redução dos casos de Covid-19 por 14 dias consecutivos”, afirma.

Para Aline, são muitos os fatores que incidem no “apagão educacional” apontado na primeira fase pesquisa (divulgada no dia 31 de julho), que de forma distinta nas três redes, privada, municiais e estadual.

“Claramente  ficam visíveis as desigualdades nas três redes. Em Porto Alegre, por exemplo apenas 14% dos alunos das escolas municipais possuem acesso à banda larga, contra mais de 60% da rede privada. Isso diz muito sobre o acesso à educação”. Há outras barreiras para além das questões tecnológicas. Mais de 80% no município e 90% no estado não tem pleno acesso à alimentação na pandemia”, explica.

Kerber aponta o reforço escolar como uma das necessidades para volta às aulas.
“Os alunos estão abalados emocionalmente com a falta de aulas e com o tipo de aula, segundo suas mães e pais. É um desastre! Vamos tentar coletivamente salvar vidas e reafirmar que vidas em primeiro lugar e que escolas fechadas são vidas preservadas”, exclama.

Segundo Rosane Zan, diretora do Departamento de Educação do CPERS/Sindicato, uma das entidades que compõem o Comitê, “se tivermos que voltar hoje pelo sistema de rodizio, teremos problema em termos do número de profissionais que atuam na rede pública”.

Outro dado relevante foi a perda do interesse das crianças e estudantes. Cerca de 60% das mães, pais e responsáveis afirmam que suas filhas e seus filhos perderam o interessa pelas aulas nesse período.

Sibele Lemos, mãe de aluna da rede pública estadual e professora da rede pública municipal, diz que as orientações das mantenedoras (municipal e estadual) não dialogam com as comunidades escolares e desconhecem as realidades do momento. As condições sociais, econômicas e emocionais das famílias e em especial das alunas e alunos devem ser levadas em conta, pois está se impondo uma atividade remota, sem considerar a realidade e a necessidade das pessoas envolvidas”, critica.

A diretora do Sindicato dos Municipários (Simpa), Cindi Sandri, explica que a rede pública municipal de Porto Alegre tem sido invisível para as políticas públicas nesse último período pela gestão municipal. “Fica fácil de compreender porque as pessoas sentem que o ano está perdido. É necessário reforço, e a realidade que está sendo divulgada pelo secretário municipal de Educação não existe. Essa pesquisa comprova isso”, afirma.

Sabrina Leal, responsável técnica pela pesquisa, alertou ainda que estes dados precisam ser analisados a partir da realidade concreta e da cultura do Brasil e chamou atenção para as situações que estão além das questões estruturais. “É necessário entender que a escola é um espaço de socialização para as crianças e estudantes. É impossível pensar um retorno sem pensar o gesto afetivo do abraço”.

Para a doutora em Educação Margareth Simionato, presidenta da Associação de Escolas de Superiores de Formação de Profissionais do Ensino do RS (Aesufope), a pesquisa é importante porque revela dados oriundos de pessoas envolvidas no cotidiano da educação. “Os sujeitos da pesquisa são pessoas que estão no cotidiano das escolas sendo profissionais ou pais e mães nela atuantes e ligados. Os dados revelam realidades antes não contabilizadas, bem como as diferenças em acesso digital e estratégias de enfrentar a crise na educação que se aprofunda a cada dia”, ressalta.

Na próxima semana será divulgada a terceira etapa da pesquisa “Pais e Professores – Educação na Pandemia Covid-19”.

A primeira etapa da pesquisa foi divulgada no dia 31 de agosto. (Leia!)

 

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