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Com o lema “Empregos, direitos, democracia, soberania e vida digna”, caravana percorreu a esplanada dos ministérios
Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
Sob pouca ou nenhuma repercussão na chamada grande imprensa, milhares de trabalhadores fizeram uma marcha na capital federal nesta quarta-feira, 15. A atividade foi o marco da entrega da Pauta da Classe Trabalhadora – prioridades para 2026-2030 para representantes dos três poderes.
O documento, oriundo da Conferência Nacional da Classe Trabalhadora (Conclat 2026), foi entregue nas próprias mãos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no final da tarde. Antes, os representantes das centrais sindicais se reuniram com o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB).
A mobilização reuniu caravanas de trabalhadores de diversas regiões do país e percorreu a Esplanada dos Ministérios sob o lema “Empregos, direitos, democracia, soberania e vida digna”.
Organizado de forma unitária por centrais como CTB, CUT, Força Sindical, UGT, NCST, CSB, Pública e Intersindical, o ato ocorreu horas após a plenária da Conclat 2026, que aprovou uma pauta com 68 propostas.
Só da CUT do Rio Grande do Sul, cerca de 400 representantes sindicais participaram na marcha, informou a secretária-geral da entidade, Silvana Piroli.
As dirigentes do Sindicato dos Professores do Ensino Privado do RS (Sinpro/RS), Maria Lúcia Coelho Corrêa e Glória Bittencourt não esconderam a satisfação de estar presentes na atividade. “As centrais sindicais se unificaram com uma representação considerável. Milhares de trabalhadores participaram da marcha que saiu da frente do Teatro Nacional até a esplanada dos ministérios”, resumiu Gloria.
Entre as prioridades imediatas estão a redução da jornada para 40 horas semanais com o fim da escala 6×1, a regulamentação do trabalho por plataformas digitais, o combate à pejotização e o enfrentamento ao feminicídio.
A marcha ganhou contornos festivos com o encaminhamento do Projeto de Lei do Executivo ao Congresso, em regime de urgência. A proposta assinada por Lula prevê o fim da escala 6×1 sem redução salarial. O texto terá tramitação de até 90 dias.
“Hoje é um dia histórico. É o dia em que iniciamos a contagem regressiva”, afirmou o deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS), designado para conduzir a articulação da proposta. “Essa é uma grande conquista da classe trabalhadora.”
O presidente da CUT, Sérgio Nobre, avaliou que o envio do projeto responde a uma demanda histórica. “A classe trabalhadora está feliz”, disse. Ele também reforçou que a mobilização será decisiva para garantir a aprovação: “Nenhum direito foi dado; todos foram conquistados com luta e mobilização”.
O ministro Guilherme Boulos defendeu na Conclat a urgência da tramitação. “Nós queremos para agora! Nós queremos o fim da 6 por 1 para agora”, afirmou. Para ele, a mudança impacta diretamente a qualidade de vida, especialmente das mulheres. “Dois dias de descanso é tempo para a família, é tempo de lazer.”
A deputada Ana Paula Lima (PT-SC) também destacou o recorte de gênero: “É inadmissível que ainda tenhamos pessoas trabalhando seis dias por semana e folgando apenas um. E as mulheres, muitas vezes, nem isso”.
Também na plenária da Conclat, a deputada Maria do Rosário (PT-RS) ampliou o debate ao apontar a disputa entre capital e trabalho. “A gente luta pelo direito ao trabalho, mas também pelo direito à vida além do trabalho”, afirmou.
Para os dirigentes, a marcha teve como foco central pressionar o Parlamento. “Ocupamos Brasília para dar visibilidade à pauta e pressionar pela aprovação de projetos prioritários”, afirmou Sérgio Nobre.
O presidente da UGT, Ricardo Patah, destacou o caráter unitário da mobilização. “A marcha é emblemática porque mostra a unidade dos trabalhadores”, disse. Ele lembrou que conquistas recentes — como a valorização do salário mínimo e a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda — tiveram origem em mobilizações semelhantes.
O presidente da CTB, Adilson Araújo, classificou o momento como decisivo. “É uma resposta organizada da classe trabalhadora diante dos desafios atuais”, afirmou. Já o vice-presidente da entidade, Ubiraci Dantas, cobrou mudanças na política econômica: “Queremos redução dos juros e mais investimentos públicos para que o Brasil possa se desenvolver”.
O documento entregue aos chefes dos Poderes articula reivindicações históricas com os desafios contemporâneos do mundo do trabalho, em um contexto marcado por transformações tecnológicas, crise climática e mudanças nas relações produtivas.
Além das medidas emergenciais, a pauta propõe um modelo de desenvolvimento baseado na reindustrialização, na ampliação do investimento público, na valorização do trabalho e na redução das desigualdades. Entre os pontos estruturais estão a transição ecológica com geração de empregos, o fortalecimento da agricultura familiar e uma reforma tributária progressiva.
No campo social, o texto defende a ampliação do acesso à moradia, transporte público, saúde e educação.
Ao final do dia, a entrega do documento ao presidente Lula simbolizou, para as centrais, o início de um novo ciclo de pressão política. A avaliação entre os dirigentes é de que a marcha foi apenas o primeiro passo — e que a disputa agora se desloca para dentro do Congresso Nacional.