Crônica
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Reunião de instalação da comissão especial da reforma tributária na Câmara dos Deputados
Foto: Cleia Viana/ Câmara dos Deputados
O debate sobre a Reforma Tributária tem ocupado o noticiário nos últimos dias, porém, pouco se fala da relevante receita da qual o Estado abre mão, por meio de subsídios tributários e creditícios. Recentemente, no dia 9 de julho de 2019, participei de audiência pública da Comissão Especial destinada a analisar proposições que tratam da concessão de subsídios tributários, financeiros e creditícios.
Naquela oportunidade, aspectos pouco conhecidos da sociedade em geral e até mesmo de parlamentares foram denunciados: do lado da arrecadação, o Estado abre mão de muitas receitas públicas (Subsídios Tributários) e, do lado da despesa pública, concede benesses (Subsídios Financeiros e Creditícios).
Dentre os subsídios tributários, cabe destacar as desonerações fiscais – muitas delas injustificáveis – que liberam diversos setores de pagar o tributo que seria devido.

“A concentração de renda brutal que existe no Brasil não é obra do acaso, mas o evidente resultado dessas medidas concretas que favorecem os setores mais ricos e privilegiados”
Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ Agência Brasil.
O caso mais escandaloso é a isenção concedida a petroleiras estrangeiras, por meio da Lei 13.586/2017, que segundo estimativas somará R$ 1 trilhão nos próximos 20 anos.
Já perdemos mais de meio trilhão de reais, segundo a Anfip, com base em dados oficiais que comprovam que desde 2010 houve R$ 512 bilhões de renúncias tributárias, sob a justificativa de tirar o país da crise e gerar empregos, o que não se confirmou.
Os dados divulgados pela Receita Federal sobre as renúncias fiscais têm computado apenas a perda de receitas com o Simples Nacional, benefícios à Zona Franca de Manaus, deduções do Imposto de Renda Pessoa Física (educação, saúde, idosos), entidades sem fins lucrativos, dentre outros.
Deixam de computar, contraditoriamente, as perdas mais relevantes decorrentes de outras desonerações que beneficiam os setores mais ricos e privilegiados, tais como:
Arte: SindifiscoDo lado da Despesa Pública, estão os “Subsídios Financeiros e Creditícios”, que na teoria seriam um “instrumento de política pública que visa reduzir o preço ao consumidor ou o custo ao produtor”, porém, na prática, o maior subsídio é dado pelo governo ao setor mais rico da economia: o setor financeiro.
Anualmente, mais de 40% do orçamento federal estão comprometidos com juros e amortizações de uma dívida pública que jamais foi auditada com participação da sociedade civil, apesar de aprovado três vezes pelo Congresso, todas vetadas pela presidência da República.
A chamada dívida pública tem crescido devido aos juros exorbitantes que incidem sobre mecanismos financeiros que geram dívida e transferem recursos principalmente para os bancos.
Dentre esses mecanismos, sobressai a remuneração diária da sobra de caixa dos bancos, operação que custou R$ 754 bilhões aos cofres públicos nos últimos 10 anos (se corrigir, chegamos a R$ 1 trilhão), além de afetar negativamente toda a economia, pois gera escassez de moeda na economia, estimulando a alta dos juros de mercado e aumentando preços e custos para a economia real, ao mesmo tempo em que garante elevados lucros para os bancos, ou seja, o inverso do propósito esperado dos “Subsídios Financeiros e Creditícios”.
Quando olhamos para todos esses impressionantes subsídios tributários, financeiros e creditícios que sequer são computados nas estatísticas da Receita Federal, fica claro que a concentração de renda brutal que existe no Brasil não é obra do acaso, mas o evidente resultado dessas medidas concretas que favorecem os setores mais ricos e privilegiados.
É urgente enfrentar esse debate, em especial no momento em que a Seguridade Social, cuja maioria dos beneficiários recebe apenas até dois salários mínimos, está sendo esquartejada, sob falso discurso de “déficit”, quando o próprio Estado abre mão de relevantes receitas. O foco das prioridades do governo está escancaradamente equivocado!