Hospitais começam a usar membrana amniótica no tratamento de queimaduras

Na capital gaúcha, pacientes adultos e crianças já estão sendo tratados nos hospitais Pronto Socorro, Conceição, Dom Vicente Scherer e Santo Antônio

O HPS realizou, no último dia 14, o primeiro transplante de membrana amniótica em uma criança na Capital e um dos primeiros do Brasil após a incorporação oficial da técnica pelo Ministério da Saúde ao SUS

Foto: Cristine Rochol/PMPA

Dois meses após a regulamentação do uso da membrana amniótica no Sistema Único de Saúde (SUS) pelo Ministério da Saúde, hospitais do Rio Grande do Sul começam a adotar de forma consistente o novo curativo biológico no tratamento de queimaduras.

Além do primeiro transplante pediátrico de membrana amniótica, realizado em 14 de novembro no Hospital de Pronto Socorro (HPS) de Porto Alegre, vários pacientes adultos e crianças estão sendo tratados com este curativo biológico na capital gaúcha, em unidades como o Grupo Hospitalar Conceição (GHC), o Hospital Dom Vicente Scherer, o Hospital da Criança Santo Antônio e o próprio HPS.

A paciente pediátrica, uma criança de 1 ano e 10 meses com queimaduras por óleo quente em 8% do corpo, recebeu o enxerto dentro da janela ideal de 48 horas. A membrana, que adere à pele e permanece por até 14 dias sem necessidade de trocas, reduz dor, risco de infecção, necessidade de procedimentos e tempo de internação, podendo abreviar a permanência hospitalar em vários dias.

“A membrana é um divisor de águas no tratamento de queimados: menor custo, menos dor, menos prurido e mais qualidade assistencial”, afirma a médica Luciana Barcellos, responsável técnica da UTI Pediátrica do HPS.

“O curativo traz conforto para o paciente: não causa coceira, reduz significativamente a dor e diminui a necessidade de trocas, o que evita repetidas sedações e analgesias em crianças. Já colocamos o curativo em três crianças e todas tiveram excelente evolução”.

Agilidade, recuperação rápida e conforto ao paciente

O material utilizado é fornecido pelo Banco de Tecidos da Santa Casa de Porto Alegre, um dos quatro existentes no país.

Desde o início da regulamentação deste curativo biológico, o Banco de Tecidos já captou 13 membranas, somando 4.157 centímetros quadrados de tecido processado. Desse total, 2.485 centímetros quadrados foram distribuídos a hospitais de referência. O uso já se expandiu também para a rede privada e para outros estados.

O coordenador do Banco, o cirurgião plástico Eduardo Chem, explica que a nova tecnologia confere mais agilidade e amplia a capacidade de atendimento.

“A pele de cadáver leva cerca de 45 dias para passar por todas as testagens e tratamento até ficar pronta. A membrana, 15 dias. Mesmo assim, nossos estoques permanecem zerados: tudo o que fica pronto é imediatamente encaminhado aos hospitais. A demanda nacional é enorme”, afirma.

O Banco ampliou sua equipe técnica, que agora conta com cinco biomédicas. A biomédica Suyan Gehlm, uma das integrantes mais experientes, destaca a receptividade das doadoras. A membrana é obtida da parte interna da placenta em cesarianas, mediante autorização das parturientes.

“As gestantes entendem o propósito. O ambiente da maternidade, marcado pelo nascimento, favorece essa aceitação”, relata.

A autorização do uso pelo Sistema Nacional de Transplantes ocorreu em 26 de setembro. A primeira captação na capital foi realizada em 7 de outubro e o primeiro transplante em 14 de novembro, um intervalo considerado curto para a implantação de um novo protocolo em rede pública.

Na assistência direta aos pacientes queimados há quase 50 anos, a cirurgiã da Unidade de Queimados do GHC, Maria da Graça Costa, é entusiasta da técnica.

“Estamos apenas começando. Usamos em um paciente com queimaduras nas mãos e a evolução foi excelente. Já solicitei novas unidades, e uma paciente idosa deve ser a próxima beneficiada”, diz.

Mobilização nacional comemora avanço

O movimento para regular essa tecnologia no Brasil iniciou após o incêndio da Boate Kiss, em 2013, e se consolidou neste ano após muitas etapas.

Para agilizar o processo, foi criada a Frente Nacional pela Regulamentação do Uso da Membrana Amniótica, articulada pelo projeto Cultura Doadora, da Fundação Ecarta, reunindo dezenas de organizações locais e nacionais.

O presidente da Fundação, Marcos Fuhr, afirma que a conquista é resultado direto da pressão social.

“Foram dezenas de ações como atos, abaixo-assinados, ofícios, reportagens. A mobilização acelerou a tramitação e demonstrou a importância de termos esse recurso no país”, comemora.

Para Flávio Silva, da Associação dos Familiares da Kiss, a aprovação representa “um legado que beneficiará milhares de pacientes”.

Segura, acessível e de processamento rápido, a membrana amniótica é vista como uma das inovações mais promissoras para ampliar a resposta do SUS no cuidado a queimaduras, uma das lesões mais complexas, dolorosas e de maior custo assistencial no país.

O Brasil tem o maior sistema público de transplantes do mundo.

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