Aldones Nino e os caminhos indígenas da arte contemporânea

Curador do Projeto TAPE – Estudo dos Caminhos, do artista visual Xadalu, em Porto Alegre, fala sobre sua trajetória, atuação museus pelo mundo, decolonialidade e história das Missões
Aldones Nino e os caminhos indígenas da arte contemporânea

Curador da exposição Projeto TAPE – Estudo dos Caminhos, Aldones Nino esteve em Porto Alegre para a abertura da mostra de Xadalu Tupã Jekupé, que permanece em cartaz até 28 de junho e propõe uma releitura contemporânea da experiência das Missões Jesuítico-Guarani a partir da arte indígena

Foto: César Fraga

A arte contemporânea pode ser um instrumento para revisitar a história, questionar narrativas consolidadas e ampliar a participação social nos espaços culturais. Essa é uma das premissas que orientam o trabalho do curador e pesquisador Aldones Nino, artista e curador nascido em São Paulo, com trajetória marcada pela aproximação entre arte, memória, educação e perspectivas decoloniais.

Pós-doutorando em Sociomuseologia pela Universidade Lusófona, em Portugal, Aldones é doutor em Artes Visuais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e em História e Artes pela Universidade de Granada, na Espanha. Atualmente atua como curador do Collegium, em Arévalo, onde desenvolve programas que articulam arte contemporânea, patrimônio histórico e participação comunitária.

No final de maio, Aldones conversou com o extra Classe, quando esteve em Porto Alegre para a inauguração da exposição Projeto TAPE – Estudo dos Caminhos, do artista guarani Xadalu Tupã Jekupé. A mostra propõe uma releitura contemporânea da experiência das Missões Jesuítico-Guarani a partir da arte indígena, articulando memória, cosmologia guarani, pesquisa histórica e produção pictórica.

Guiada pelo conceito de tape — “caminho”, em guarani —, a exposição reúne duas pinturas inéditas e uma série de estudos que servirão de base para trabalhos futuros, dando continuidade à pesquisa desenvolvida por Xadalu ao longo da última década sobre aquilo que define como um barroco jesuítico contemporâneo. Realizada em parceria com a Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), a mostra foi aberta em 22 de maio e permanece em cartaz até 28 de junho, com entrada gratuita. Durante sua passagem pela capital gaúcha, Aldones conversou com o Extra Classe sobre sua trajetória, os desafios dos museus contemporâneos, a presença indígena na arte e os caminhos percorridos pela pesquisa que deu origem à exposição.

Quem é Aldones Nino

Aldones Nino nasceu em São Paulo e cresceu na periferia da capital paulista. É doutor em Artes Visuais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e doutor em História e Artes pela Universidade de Granada, na Espanha. Atualmente realiza pós-doutorado em Sociomuseologia na Universidade Lusófona, em Portugal. Atua como curador do Collegium, em Arévalo, na Espanha, onde desenvolve programas que articulam arte contemporânea, patrimônio histórico e participação comunitária. Sua pesquisa concentra-se nas relações entre arte, memória, museus e perspectivas decoloniais, com especial atenção à produção de artistas indígenas, negros e trans. Membro do International Council of Museums (ICOM) e do International Committee for Education and Cultural Action (CECA), participa de projetos curatoriais em âmbito internacional. Atualmente é curador do Pavilhão Brasileiro na Bienal de Gwangju, na Coreia do Sul.

Da periferia de São Paulo à curadoria internacional

Aldones Nino e os caminhos indígenas da arte contemporânea

“Passei a direcionar minha pesquisa para compreender as relações entre arte e história, especialmente a produção de artistas indígenas, negros e trans”

Foto: César Fraga

Extra Classe — Como começou a tua trajetória e formação até chegar à curadoria?
Aldones Nino — Eu nasci em São Paulo, mas minha família é de origem nordestina, tanto por parte de pai quanto de mãe. Cresci na periferia da cidade, na região de Guaianases, próxima de Cidade Tiradentes e Itaquera. Meu pai é analfabeto e minha mãe estudou muito pouco. Fui a primeira pessoa da minha família a ingressar na universidade, algo que só foi possível graças às políticas de acesso ao ensino superior, por meio do FIES. Inicialmente cursei Filosofia na Uninove porque tinha interesse em dar aulas. Naquela época, eu sequer imaginava a possibilidade de estudar em uma universidade pública. Cresci ouvindo que esses espaços não eram destinados a pessoas como eu. Depois da graduação, fiz um segundo movimento e fui para o Rio de Janeiro cursar História da Arte na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Lá enfrentei dificuldades relacionadas à permanência estudantil e cheguei a morar em uma ocupação dentro da própria universidade.

EC — Quando surgiu o interesse em relacionar arte, questões sociais e museus?
Aldones — Quando entrei na universidade e conheci melhor os museus e a arte contemporânea, comecei a me perguntar por que eu e minha família não fazíamos parte daquele universo. Os museus são instituições abertas, mas existem barreiras estruturais de classe, raça e gênero que impedem muitas pessoas de se sentirem pertencentes a esses espaços. Passei a direcionar minha pesquisa para compreender as relações entre arte e história, especialmente a produção de artistas indígenas, negros e trans. Meu interesse é entender como essas produções ajudam a repensar a história e de que forma os espaços culturais podem ser reorganizados para que essas experiências não sejam tratadas como nichos, mas como parte da produção cultural universal.

Arte contemporânea, museus e participação social

EC — Qual é o foco da tua pesquisa atual no pós-doutorado?
Aldones — Atualmente faço um pós-doutorado em Sociomuseologia na Universidade Lusófona. Meu interesse é compreender como ocorre a aproximação do público não especializado com a arte contemporânea. Diferentemente de exposições de artistas amplamente conhecidos, procuro entender quais mecanismos fazem as pessoas se conectarem com produções contemporâneas quando não existe a atração imediata de um grande nome.

EC — Como o contexto em que trabalhas influencia essa pesquisa?
Aldones — Em grandes instituições, as pesquisas costumam ser quantitativas, analisando fluxos de público e indicadores gerais. No contexto menor em que trabalho atualmente, consigo conversar diretamente com os visitantes, entender suas percepções e acompanhar de perto como se relacionam com o espaço. Essa proximidade oferece informações que dificilmente aparecem em levantamentos de larga escala.

Aldones Nino e os caminhos indígenas da arte contemporânea

“Acredito que a arte contemporânea ainda é vista como algo elitizado, mas, quando observamos mais atentamente, percebemos que ela dialoga com diferentes grupos sociais”

Foto: César Fraga

EC — Você tem sido convidado para fazer palestras sobre esse assunto recentemente?
Aldones — Não muito. Quando eu estava integralmente dedicado à vida acadêmica, participava com frequência de congressos, seminários e atividades de ensino, mas sempre voltado à história da arte. Essa pesquisa em sociomuseologia é mais recente e ainda está em construção.

EC — O que é a sociomuseologia e por que ela dialoga com a arte contemporânea?
Aldones — A Universidade Lusófona é uma das principais referências internacionais nessa área. Curiosamente, mais da metade dos pesquisadores do programa é brasileira. Sou o único pesquisador dedicado à arte contemporânea; os demais trabalham com museus rurais, ferroviários ou ligados à memória comunitária. Acredito que a arte contemporânea ainda é vista como algo elitizado, mas, quando observamos mais atentamente, percebemos que ela dialoga com diferentes grupos sociais. A sociomuseologia pode ajudar a recuperar a conexão entre os museus e a sociedade, que em muitos casos acabou se enfraquecendo ao longo do tempo.

EC — A renovação dos quadros dos museus contribui para essa mudança?
Aldones — Sim. A ocupação desses espaços por novos agentes produz transformações importantes. Vi isso acontecer na universidade e vejo o mesmo movimento em museus e instituições culturais. Quando chegam pessoas com outras experiências e sensibilidades, surgem novos enfoques e novas formas de relação com o público.

Experiência na Espanha e mudanças no campo cultural

EC — Como tem sido a experiência de trabalhar na Espanha e quais diferenças tu percebes em relação ao Brasil?
Aldones — Atualmente trabalho em Arévalo, uma cidade de aproximadamente oito mil habitantes. Antes de chegar, imaginava encontrar maior resistência a abordagens decoloniais ou críticas ao passado colonial espanhol. No entanto, a experiência tem sido positiva. O público local, inclusive pessoas mais velhas, costuma demonstrar grande disposição para o diálogo. Quando uma obra está sustentada por pesquisa consistente, ela é recebida como oportunidade de reflexão, e não como uma provocação gratuita. Um exemplo foi uma exposição da artista argentina Mercedes Azpilicueta, baseada em pesquisas históricas sobre Catalina de Erauso. Apesar de abordar temas delicados envolvendo religião e sexualidade, a reação do público foi marcada pela curiosidade e pelo interesse. No Brasil, muitas vezes esse tipo de debate encontra resistências maiores, especialmente em função das tensões religiosas contemporâneas.

EC — E como avalias a tua participação em grandes eventos internacionais, como as bienais?
Aldones — Recentemente acompanhei a Bienal de Veneza como visitante, observando o trabalho de artistas com quem mantenho diálogo. Atualmente sou curador do Pavilhão Brasileiro na Bienal de Gwangju, na Coreia do Sul. Esses eventos demonstram que as revisões históricas e culturais em curso não são fenômenos isolados. Estamos vendo uma reorganização do campo artístico com a ampliação da presença de perspectivas indígenas, negras e trans. Trata-se de uma transformação histórica legítima, e não de uma tendência passageira. A última Bienal de Veneza teve, pela primeira vez, um curador brasileiro, Adriano Pedrosa, à frente da mostra principal. Na edição seguinte, a curadoria passou para uma mulher negra africana. São mudanças que ajudam a compreender a amplitude desse processo.

Arte indígena e revisão da história

Aldones Nino e os caminhos indígenas da arte contemporânea

Xadalu dá os últimos retoques em sua obra vésperas da inauguração da exposição

Foto: César Fraga

EC — Como surgiu a parceria com Xadalu Tupã Jekupé?
Aldones — Conheci o Xadalu em 2021, durante uma residência artística no Rio de Janeiro. Desde então desenvolvemos projetos em conjunto. O trabalho dele é profundamente ligado ao território e às relações entre a cultura guarani e a tradição cristã. Quando comecei a atuar na Espanha, propus uma pesquisa conjunta sobre as Missões. Investigamos documentos históricos no Arquivo de Simancas e aprofundamos estudos sobre as reduções jesuítico-guarani.

EC — Qual é a proposta da exposição Projeto TAPE – Estudo dos Caminhos?
Aldones — A mostra apresenta um percurso de pesquisa e autodescoberta do artista. O conceito de tape, que significa caminho em guarani, orienta uma reflexão sobre a história das reduções e sobre os encontros culturais que marcaram esse período. O projeto busca apresentar uma visão mais complexa desse processo histórico e evidenciar o protagonismo indígena em sua construção.

EC — O que essa pesquisa revela sobre as reduções jesuíticas que o público geralmente desconhece?
Aldones — Ela ajuda a desmontar a ideia simplificada de que as reduções eram apenas espaços de catequização. Eram sociedades extremamente complexas e populosas, muitas vezes contando com apenas dois jesuítas para dezenas de milhares de indígenas. Havia intensa produção cultural, tecnológica e intelectual. Os indígenas falavam latim, tocavam instrumentos musicais, criaram as primeiras imprensas da região e fabricavam relógios que viajantes europeus descreviam como superiores aos produzidos na Alemanha e na Suíça. Também possuíam grande capacidade política. Durante os conflitos relacionados ao Tratado de Madri, elaboraram documentos com sólida argumentação jurídica para defender a permanência em seus territórios. A exposição procura evidenciar essa agência indígena e mostrar como ela dialogou com elementos do pensamento europeu sem perder sua própria identidade.

EC — Como a exposição está estruturada e o que o público encontrará?
Aldones — A mostra está organizada em dois grandes momentos. O primeiro apresenta a trajetória do Xadalu como artista urbano, marcada pela ativação do espaço público e pela discussão sobre território, especialmente por meio da série “Área Indígena”. O segundo revela, de forma inédita, os estudos, esboços e materiais de pesquisa que sustentam sua produção artística. É uma oportunidade de conhecer os bastidores do processo criativo. O público encontrará fotografia, vídeo, gravura, desenho, pintura e diferentes linguagens visuais que ajudam a compreender a amplitude da investigação desenvolvida pelo artista.

Aldones Nino e os caminhos indígenas da arte contemporânea

A exposição reúne duas pinturas inéditas e uma série de estudos que servirão de base para trabalhos futuros, dando continuidade à pesquisa desenvolvida por Xadalu ao longo da última década sobre aquilo que define como um barroco jesuítico contemporâneo

Foto: César Fraga

 

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