Cuidado não remunerado de idosos expõe sobrecarga feminina no RS

Envelhecimento da população aumenta a demanda por cuidadoras; o trabalho invisível que recai principalmente sobre mulheres e famílias evidencia lacunas nas políticas públicas

Fátima Rosane dos Santos, 72 anos, concilia a atuação na Pastoral da Criança, em sua comunidade em Canoas, com os cuidados de irmãos idosos acamados

Foto: Igor Sperotto

A sustentabilidade do cuidado de milhares de idosos brasileiros depende de pessoas como Ângela Stanguerlin Chemin, 57 anos. Pós-graduada em Jornalismo e atualmente residente em Santo Ângelo, na Região das Missões, ela dedica boa parte do seu tempo à mãe, de 96 anos, e ao irmão, de 68, ambos dependentes de cuidados permanentes. Também administra uma casa com cinco adultos e encontra nas madrugadas o único espaço para o artesanato, atividade que utiliza para preservar a saúde mental e complementar a renda.

“Ser cuidadora de idosos em tempo integral não é um gesto heroico e muito menos romântico. É um compromisso diário de respeito, presença, carinho e responsabilidade”, afirma.

O que Ângela vive dentro de casa não é uma exceção, mas parte de uma realidade que ganha relevância à medida que a população envelhece. O Rio Grande do Sul está na vanguarda desse processo demográfico.

Segundo o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o estado já registra 115 idosos para cada 100 crianças e possui a maior idade média populacional do país, de 38,1 anos.

Cuidados e sobrevivência

Esse cenário evidencia a importância do trabalho de cuidado não remunerado, conjunto de atividades essenciais para a sobrevivência e o acompanhamento de pessoas dependentes.

Em Santo Ângelo, Ângela Stanguerlin Chemin, 57, dedica boa parte do seu tempo à mãe, de 96 anos, e ao irmão, de 68, ambos dependentes de cuidados permanentes

Foto: Arquivo Pessoal

Historicamente assumido em sua grande maioria por mulheres, esse trabalho reduz a demanda por serviços públicos e privados de assistência, saúde e cuidados de longa duração, embora imponha custos elevados à saúde, à renda e à autonomia de quem cuida.

A realidade se repete na região metropolitana de Porto Alegre. Aos 72 anos, Fátima Rosane dos Santos, moradora de Canoas, concilia a atuação na Pastoral da Criança, em sua comunidade no Bairro Fátima, com os cuidados de irmãos idosos acamados. Sua rotina retrata uma realidade cada vez mais comum em um estado que envelhece rapidamente.

A queda da taxa de fecundidade, que recuou de 2,12 filhos por mulher em 2000 para 1,51 em 2023, projeta um cenário em que, até 2070, quase 40% da população gaúcha terá mais de 60 anos. Apesar disso, a expansão das políticas públicas voltadas ao cuidado não acompanha a velocidade dessa transformação demográfica. Na prática, grande parte da responsabilidade continua recaindo sobre famílias e, principalmente, sobre mulheres.

A trajetória de Fátima também demonstra como gênero, raça e renda ampliam a sobrecarga do cuidado. Dados nacionais do IBGE mostram que mulheres negras apresentam os maiores índices de participação nas atividades de cuidado não remunerado, alcançando 92,7%.

Além das privações compartilhadas com a maioria dos brasileiros que exercem a jornada extra de cuidador/a, soma-se o trauma recente das enchentes que devastaram Canoas, destruíram parte de suas residências e desorganizaram a rede de apoio que sustentava o cuidado com seus irmãos, tornando a rotina de assistência ainda mais exaustiva.

“A gente acaba virando ‘guerreira’ por necessidade”, resume Fátima.

Ao assumir tarefas que, muitas vezes, não encontram suporte suficiente em serviços públicos, ela e tantas outras mulheres garantem o atendimento cotidiano de familiares idosos, frequentemente à custa da própria saúde, do tempo livre e da estabilidade financeira.

Rede de apoio identifica demandas invisíveis

A rede de apoio à população idosa ganha um reforço importante por meio da Pastoral da Pessoa Idosa (PPI). Desde janeiro deste ano, a coordenação nacional da entidade está a cargo de Dione Menz, enfermeira e psicóloga que assumiu a função com o compromisso de aumentar a promoção dos direitos e da qualidade de vida das pessoas idosas em situação de vulnerabilidade.

Segundo Dione, a missão da Pastoral não é substituir o papel do Estado, mas atuar como ponte entre os idosos e os serviços aos quais eles têm direito.

O diferencial da entidade está na metodologia baseada na proximidade. Por meio de visitas domiciliares mensais, os voluntários acompanham a situação dos idosos, identificam vulnerabilidades e observam possíveis violações de direitos que nem sempre chegam ao conhecimento dos órgãos públicos.

Conforme explica a coordenadora, o trabalho depende da presença constante nos territórios e da construção de vínculos de confiança que permitam compreender as necessidades de cada pessoa atendida.

A atuação da Pastoral da Pessoa Idosa se sustenta em uma rede de cerca de 20 mil líderes, que realizam aproximadamente 100 mil visitas mensais em todo o país.

Nesse processo, Dione defende um olhar mais amplo sobre o envelhecimento. “As políticas públicas devem ir além do atendimento básico, reconhecendo a subjetividade e a trajetória de cada idoso, respeitando suas histórias únicas e, simultaneamente, promovendo o cuidado com o cuidador”, explica.

Em junho deste ano, o governo federal lançou o Programa de Atenção Domiciliar à Pessoa Idosa (Padi Brasil), destinado ao atendimento de idosos com limitações funcionais em suas residências

Foto: Igor Sperotto

Programas buscam aliviar a sobrecarga das famílias

O avanço do envelhecimento populacional levou governos a ampliar iniciativas voltadas ao cuidado domiciliar. Em junho deste ano, o governo federal lançou o Programa de Atenção Domiciliar à Pessoa Idosa (Padi Brasil), destinado ao atendimento de idosos com limitações funcionais em suas residências.

A iniciativa prevê investimento de R$ 500 milhões, sendo R$ 163,2 milhões neste ano e R$ 329,3 milhões em 2027.

No Rio Grande do Sul, a estratégia passa pela descentralização dos serviços. O estado habilitou 13 serviços especializados de saúde, com equipes de enfermagem, psicologia, fisioterapia e serviço social, além de aumentar o programa Melhor em Casa, o qual compartilha com as famílias a realização de procedimentos complexos de saúde.

O Fundo Estadual do Idoso (FEI) também financia projetos municipais por meio do programa RS Amigo da Pessoa Idosa.

Ao anunciar o Padi Brasil, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, afirmou que o cuidado domiciliar representa uma medida de justiça social e pode contribuir para reduzir a sobrecarga enfrentada principalmente pelas mulheres.

Para especialistas e organizações que atuam na área, entretanto, a efetividade dessas iniciativas dependerá de sua continuidade e ampliação. O desafio passa pelos chamados “3 Rs” do cuidado: reconhecer, reduzir e redistribuir o trabalho atualmente concentrado nas famílias.

Dione Menz destaca que a consolidação dessas políticas exige compromisso permanente do poder público. “Estar no orçamento é a única forma de garantir que isso não seja uma ação de governo, mas uma política permanente”, assegura.

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